Alemão com Viés Interdisciplinar

No mundo pós-moderno em que vivemos, ganha evidência um sem número de conexões em redes e configurações de forma global. Existe uma profusão de informações com as quais o sujeito se conecta, por meio de técnicas diversas. A afirmação do professor doutor Holgonsi Soares Gonçalves de Siqueira caracteriza o contexto: “O mundo de hoje é um mundo conectado em tempo real e que, por isso, os acontecimentos globais influenciam nossa vida cotidiana e, por sua vez, os acontecimentos locais repercutem na arquitetura global”. Neste mundo acelerado, mutável e flexível emerge a interdisciplinaridade como exigência sociopolítica. Surge um processo de organização de conhecimentos, nestes novos tempos, em que ocorre, continuamente, o transporte de fluxos de saberes e competências.
A prática pedagógica mais tradicional, que conduz à atuação docente causadora de fragmentação de conhecimentos deve ceder lugar à abordagem globalizadora, coerente com contextos culturais, sociais, político-econômicos e pessoais dos alunos. Conforme possibilita ações interligadas no atual universo de conexões e inter-relações, o exercício interdisciplinar também consiste em ferramenta para compreensão de suas problemáticas e tem grande valor em espaços educativos formais e informais. O exercício interdisciplinar na escola não indica a aprendizagem como fruto de reprodução e transmissão de conteúdos, mas de reconstrução de conhecimentos, inseridos num contexto de totalidade.
Breves distinções de terminologias que, embora sejam baseadas em diferentes pressupostos, podem nortear objetivos pedagógicos. Enquanto a multidisciplinaridade aponta para a justaposição de disciplinas diversas, e a pluridisciplinaridade para a justaposição de disciplinas vizinhas nos campos de conhecimento, seus conteúdos, porém, não são, propriamente, interligados. A proposta da interdisciplinaridade inclui abordagem de temas de diferentes disciplinas e integração de conteúdos, visando à construção não fragmentada, mas globalizada do conhecimento. Japiassu, 1976, observa a interferência da coordenação e cooperação entre as disciplinas sobre a graduação existente nesses conceitos.
Articulações, referências, associações e interações na área do saber não são apenas ocasionadas, como potencializadas pela interdisciplinaridade, a qual propõe postura docente que apresenta planejamento de aulas mais abrangente, formação continuada, diálogos com pares e outros especialistas, sua consultoria e parceria dos alunos. Em concordância com esta postura, a atuação e participação discente ganha amplitude, pois indica exposição de seus interesses, sugestão de ajustes, temas ou projetos, demonstração de postura crítica, valorização de seu contexto pessoal, social e cultural, enfim, posição de centro das aulas.

Exemplificando considerações teóricas, seguem comentários sobre minha experiência interdisciplinar com alunos do segundo ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental City Jaraguá IV:
Há meses os candidatos a patrono da escola têm sido tema freqüente entre pais e responsáveis, alunos, professores e outros funcionários da unidade escolar. Foram socializadas e discutidas as biografias dos candidatos e os alunos tiveram a oportunidade de expor seus comentários e suas opiniões sobre suas vidas, bem como de ressaltar seus pontos mais significativos para eles. Foram propostos diálogos breves, em Alemão, com os patronos. Primeiramente, os diálogos foram encenados em sala de aula, depois registrados por meio de balões de expressão e desenhos relacionados à realidade.
A autenticidade dos registros, com certeza, tornou a atividade mais proveitosa. É muito importante, portanto, valorizar as vivências dos alunos. Ocorreu interdisciplinaridade entre Alemão, Português, Geografia e Artes.
Outros registros de atividades interdisciplinares integram os componentes anteriores e também Ciências e Matemática.
Os registros relacionam-se à expressão de seu estado de ânimo, dramatizado em sala, encontro com outro aluno e apresentação pessoal, indicação de procedências, transportes e período de tempo de viagem à Alemanha e partes da árvore. Apesar de pertencerem ao segundo ano do Ensino Fundamental, devo ressaltar que a maioria desses alunos necessitava, no início do ano letivo, intensificar seu processo de alfabetização. Nesse curso, eles ampliam suas noções de leitura e escrita, exprimem suas opiniões, desenvolvem seu pensamento crítico, enfim, realizam atividades tanto prazerosas como significativas, pois associam seus conhecimentos de forma não arbitrária.
Como salienta Pierre Lèvy, 1993: “Trabalhar, viver, conversar fraternalmente com outros seres, cruzar um pouco por sua história, isto significa, entre outras coisas, construir uma bagagem de referências e associações comuns, uma rede hipertextual unificada, um contexto compartilhado, capaz de diminuir os riscos de incompreensão.” Negar aos alunos a prática interdisciplinar significa evitar a transgressão de pseudobarreiras entre as disciplinas e seguir tendência limitadora que não permite contribuições entre elas. É reconhecida a importância de cada disciplina. Devem ser promovidas, entretanto, suas aproximações, com intuito de viabilizar a autonomia dos alunos na interpretação de interações e realização de outras conexões, além de aumentar sua compreensão de conhecimentos não fragmentados, mas conectados e, propiciar constantemente a articulação, renovação, construção e reconstrução de seus saberes.


(Figura 1 – Ich heisse Érica, und du?)


(Figura 2 – Ich heisse Daniel...)


(Figura 3 – Hallo, ich heisse Jéssica. – Ich komme aus São Paulo...)


(Figura 4 – Guten Morgen, ich heisse Thamara...)


(Figura 5 – Ich bin Krankenschwester von Beruf...)


(Figura 6 – Érika chegou na Alemanha 7 dias depois.)


(Figura 7 – Ônibus, metrô, trem, avião...)


(Figura 8 – Ich heisse Allanac, und du?)

Referências bibliográficas

DOSSE, François. O Império do Sentido – A Humanização das Ciências Humanas. São Paulo. EDUSC. 2003.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e Patologia do Saber. Rio de Janeiro. Editora Imago. 1976.
LÈVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência – O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro. Editora 34. 1993.
SIQUEIRA, Holgonsi Soares Gonçalves e PEREIRA, Maria Arleth. Uma Nova Perspectiva Sob a Ótica da Interdisciplinaridade. In: Caderno de Pesquisa de Pós-Graduação em Educação da UFSM, nº. 68. Santa Maria. Setembro de 1995.