Identidade cultural em questão: sala de aula

 Poliana Coeli Costa Arantes
UFMG
Resumo

O presente artigo tem como objetivo aprofundar a discussão que foi iniciada em apresentação durante o VII Congresso brasileiro de professores de alemão. Ao longo do artigo faço uma discussão sobre o papel do professor e do livro didático na contemporaneidade em meio à “crise de identidade” (Hall, 2000) vivenciada por nós em todos os âmbitos sociais e que tem seu reflexo também em sala de aula no processo de aprendizagem de Língua estrangeira (LE), onde os estereótipos e preconceitos interferem na relação com o outro chegando a criar barreiras ao aprendizado. Na segunda parte do artigo analiso textos de um livro didático de alemão como LE, que contemplam diferentes vozes discursivas e que são consoantes a um projeto de ensino intercultural.

Palavras-chave
Identidade cultural – interculturalidade – estereótipos 

Preconceitos e estereótipos em sala de aula: o papel do professor e do livro didático

            Ao longo de minha prática de ensino de alemão como LE, tenho observado alguns fenômenos interessantes que acontecem na interação em sala de aula e que, a meu ver, merecem a atenção principalmente dos professores atuantes nesta área.
Ao se proporem a estudar o alemão, os alunos de LE parecem ter que enfrentar a primeira barreira cultural: “alemão é uma língua muito feia!” “alemão é difícil, complicado”, “o povo é muito frio!”, “os alemães são muito fechados, não gostam de estrangeiros”. Tais expressões foram objeto de estudo de vários autores contemporâneos, tais como Elias (1994) que trata daquela da crença sobre a qual o alemão seria o idioma das classes baixas, Schwerdfeger(2000) que aborda três crenças que elege como principais: a língua alemã é feia, treina o pensamento lógico e por último, reflete o militarismo. Outros autores trabalharam também nesse sentido, tais como Mônaco(1990) e Bolognini(1993).
Ao me deparar com tais falas espontâneas, produtos do senso-comum, e que para o meu espanto era recorrente nas observações de alunos não só do primeiro estágio, percebi que logo na primeira dificuldade em sala de aula, as tais falas serviam como “aparato-justificador” da ainda não adquirida, competência gramatical, vocabular ou quaisquer outras que estivessem em questão naquele dado momento.
Nestas horas é que sentia realmente que minha atuação como professora não poderia se restringir somente ao ensino das competências lingüístico-gramaticais que me eram requeridas pela instituição. Principalmente, porque o princípio da interculturalidade, entendido sob a perspectiva de Knapp e Knapp – Potthoff (1990) como sendo o aperfeiçoamento da capacidade de se melhorar a comunicação com outra(s) cultura(s), deve ser em minha opinião, um dos primeiros tópicos que deveríamos ativar para lidar com o aprendizado da cultura do outro, que inclui na minha opinião, a língua, indissolúvel da cultura. Muito além das salas de aula, deveríamos aplicar a relavitização em nossas relações sociais como um todo, para que não sejamos injustos, preconceituosos e soberbos para com o que nos aparenta diferente.
Assim, por acreditar que a partir de uma mudança nos universos e formas de análise e de olhar e de interpretar a “realidade”, é que venho desenvolvendo um trabalho de conscientização e de visão crítica para com a relação que meus alunos, de alemão como LE, estabelecem com a cultura alemã. “A observação das regras da pragmática e da semiótica, em congruência, podem numa situação de interação, ser mais importante que uma congruência entre as regras gramaticais e semânticas” Oksaar (1991) apud SOUZA (2001:23). Não estou defendo aqui, um ensino que não passe pelas regras formais, só quero ressaltar a importância de outras concomitantemente àquelas.
Acredito que através deste trabalho tais relações, inclusive com questões formais da língua, passam a ter um viés e importâncias antes não visualizadas, ganhando assim, outro ângulo de visão que auxiliaria no aprendizado de LE, dado que um aprendizado onde o aluno seja capaz de se colocar no lugar do outro e usar um óculos para enxergar a realidade do outro como o outro, se apresenta de forma muito mais instigante e interessante, onde a facilidade em ver pontos positivos aumenta, em detrimento de um aprendizado iniciado com barreiras pessimistas e domado por adjetivos negativos. 
Nesse sentido, acredito ter o professor papel importantíssimo para uma abordagem de conscientização crítica destes alunos, uma vez que somos os transmissores, não só da língua, como da cultura (acredito que tal separação não seria possível, dado que língua e cultura estão em co-relação, não são categorias estanques e refletem os comportamentos, em vários âmbitos, dos interpelados em questão). “Não é possível ensinar uma língua estrangeira sem ensinar também a sua cultura que, por sua vez, configura o contexto necessário para o uso da língua” STERN (1993:205) apud SOUZA(2001).
Além de transmissores, nos transformamos também muitas vezes, em modelos a serem seguidos e imitados pelos alunos. Isso é percebido até mesmo no reforço dos estereótipos, que são disseminados e corroborados pelos próprios professores, infelizmente.
“O professor de língua estrangeira é uma das formas de acesso para outra cultura, e a conscientização dos aprendizes de língua estrangeira das diferenças culturais é de grande importância mesmo quando se trata de aprendizes que não pretendem ir ao país onde a língua alvo é falada e que aprendem um idioma por outros motivos, ainda que esse motivo seja somente a leitura de algum livro no original, pois quando lemos precisamos também entender o discurso do outro ou, pelo menos, estarmos sensibilizados para o diferente, de forma a respeitarmos as diferenças e não simplesmente rotularmos por não entendermos ou não conhecermos porque ele se comporta, reage ou sente desta ou daquela maneira” SOUZA(2001:32)

Mas é preciso também retirar um pouco desta responsabilidade dos professores, uma vez que contamos com um aparato de didático para nossas aulas que não podem seguir na direção contrária àquela estabelecida por nós em nossos trabalhos. Os materiais didáticos também exercem influência e ocupam a posição de modelo de referência, em alguns casos, mais até que os próprios professores, já que trata-se de material impresso, documentado e produzido no país de origem, e por autores também de origem (em muitos casos) alemã.            Portanto, para que possamos fazer um trabalho em sala de aula consoante aos nossos objetivos, deveríamos analisar minuciosamente e criticamente os aparatos didáticos que elegemos para a utilização em sala, tendo em vista que seu uso indiscriminado e sem um olhar crítico pode nos aprisionar e limitar a capacidade de criação dos alunos em sala de aula. Acredito que ensinar/aprender uma língua estrangeira não é somente trabalhar a tempo as lições que normalmente são determinadas pela instituição onde trabalhamos. 
Com a crescente ampliação dos estudos culturais, da sociolingüística e de diferentes abordagens de prática de ensino em sala de aula na atualidade, muitos livros didáticos têm se mostrado mais adaptados à realidade contemporânea e, portanto, têm dado maior importância às discussões contemporâneas mais globais, que são foco hoje na sociedade como um todo, com poucas ou quase sem que existam marcas identitárias nacionais; o que propicia um caráter globalizante do mundo, dos sujeitos. Ao mesmo tempo em que toma mais cuidado com relação à difusão de estereótipos, que é o contrário do que observamos nos livros didáticos das décadas de 70,80, que traziam esboços de famílias com personagens tipificados, imbuídos de características individuais, construídas a partir de estereótipos; apresentavam versões de histórias sem conflitos, personagens que comiam determinada comida e bebiam determinada bebida, onde havia delimitações muito claras entre certo/errado, bem/mal. Não muito longe, um livro atual traz, inclusive em sua versão revisada, um léxico de cerveja, irreconhecível até por muitos alemães.
De acordo com Tomlinson (1998) os livros didáticos podem trazer versões que causem desconforto e até humilhações para o aprendiz. Tal colocação nos leva a reafirmar os propósitos deste projeto de ensino, que busca diminuir ou eliminar tal sentimento de inferioridade dos aprendizes em relação à língua estrangeira.

“Enfatizamos o fato de que cada cultura possui suas particularidades, e que essas particularidades não devem ser vistas, no contexto global, como marcadoras de superioridade ou inferioridade. O olhar crítico sobre o livro didático tem deixado, com o passar dos anos, de compor o perfil do professor de língua estrangeira.”  (SOUZA, 2001:30)

Adaptados à realidade contemporânea, muitos livros já não adotam mais tal visão estereotipada e pré-concebida de cultura e, buscam através de uma exposição não só de uma, mas de várias identidades, apresentarem o mundo sócio-cultural no qual a Alemanha e demais países estão inseridos. A apresentação de várias identidades nos remete a Hall (2006), que acredita que existe no mundo, que ele denomina como moderno, um declínio das velhas identidades que outrora estabilizavam o mundo e o sujeito. As velhas identidades são aquelas existentes no sujeito do Iluminismo,
“o sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecesse essencialmente o mesmo (...) ao longo da existência do indivíduo “(HALL, 2006:10)

No que diz respeito ao sujeito contemporâneo, que Hall denomina pós-moderno, a identidade é vista como uma “celebração móvel”, que é “formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2006:13). Assim, o sujeito atual é fragmentado, dono de várias identidades circunstanciais ou não e, que interfere com isso, nas estruturas e processos centrais das sociedades contemporâneas, abalando assim os quadros de referência que outrora forneciam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (HALL, 2000)
Ao fazer um trabalho de leitura crítica dos livros didáticos que utilizo em sala de aula, um deles chamou bastante minha atenção: Delfin – da editora Hueber, no que diz respeito ao seguinte aspecto: os textos que ele traz apontam para uma direção muito semelhante àquela discutida ao longo deste artigo, há uma preocupação com o ensino intercultural e este é o projeto de ensino que tenho defendido e encontrado como eficaz para uma abordagem menos preconceituosa e estereotipada do outro. Tento dar vida a um conceito Bakthiniano, apresentado pelo professor Henrique Evaldo Janzen da UFPR, de exotopia, para fazer com que meus alunos o apliquem e estejam do lado de fora cultural para olhar a cultura diferente contemplando diversificadas vozes discursivas, fazendo assim uma construção híbrida de nós mesmos no momento em que analisamos o outro. E acredito que a sala de aula é um local propicio para que as diferenças socioculturais sejam tratadas, objetivando assim, a sensibilização para a desconstrução de estereótipos.
“a maneira como se contrastam comportamentos permite tanto ao aprendiz quanto ao professor vivenciar a sua própria cultura conscientemente e para alcançar tais pré-requisitos, não se deve olhar a maneira de comportar-se do outro com os olhos da própria cultura” OKSAAR (1991:19) apud SOUZA (2001:23)

Análise dos textos do Delfin

Os textos não apresentam visões estanques dos sujeitos, nem com relação à etnia, sexo ou classe social. Não há também a exposição de uma identidade nacional alemã, uma vez que aspectos culturais específicos a esta comunidade são tratados em tipos textuais diferentes, como cartas e reportagens, o que possibilita um efeito de subjetividade, dado e restrito ao sujeito redator da carta ou ao sujeito interrogado de uma entrevista. Assim, a possibilidade de o aluno tomar determinado dado cultural específico como um protótipo, estereótipo da cultura alemã é muito remota, dada a restrição do tipo textual empregada pelos autores do livro didático. O que seria diferente, por exemplo, se o tipo textual fosse uma matéria de jornal, o que consagraria uma autoridade tal capaz de envolver os autores do livro como co-responsáveis pela informação veiculada, por ser dada como espelho da realidade factual.
Cabe ressaltar que o livro constitui-se de 20 textos, um texto para cada lição, que variam com o nível de dificuldade de cada estágio, bem como com a inserção de tópicos gramaticais consoantes com aquele aprendido na lição em questão. Não obstante, devido à extensão deste artigo não contemplarei uma análise de todos os textos que constituem o livro. Abordarei os aspectos mais relevantes que ilustram bem as questões discutidas ao longo deste artigo.
O texto que está na lição 2 e tem o título Rekorde, Rekorde é interessante para começarmos nossa análise, uma vez que é praticamente o primeiro contato que o aluno iniciante terá com um texto mais longo escrito em alemão. Este texto apresenta 4 pessoas que moram em alguma cidade da Alemanha e que batem algum recorde ao executarem determinada atividade em um curto espaço de tempo. Já na apresentação dos personagens do texto, são inseridas diferentes identidades, uma vez que há presença de diferença étnica e de gênero, idades e profissões. Não se encontram estereótipos de alemães loiros e com olhos claros, como se fossem a única aparência de habitantes alemães. Pelo contrário, as feições podem ser internacionalmente reconhecidas como sendo habitantes de quaisquer partes do mundo.  
Os recordes das personagens são os seguintes: o primeiro consegue distinguir dezoito tipos de água mineral, uma enfermeira consegue trocar um pneu em vinte e sete segundos, um desenhista desenha seis rostos em dois minutos e, finalmente, um barbeiro que consegue retirar a espuma de barbear, com uma lâmina de cortar, de trinta balões sem deixá-los estourar. A partir da apresentação dos recordes acima descritos, percebemos a multiplicidade de identidades que um único indíviduo pode abarcar, e com esta demonstração segue a desconstrução de sensos-comuns e preconceitos, como o machismo, por exemplo, no caso da mulher, que além de ser enfermeira mostra-se hábil para a execução de tarefas, comumente conhecidas e taxadas como rude e pesado, destinado à execução masculina.
Não obstante, vale lembrar que tal desconstrução pode não ter sido intencional, uma vez que o tratamento do feminino na Alemanha é muito diferente do que temos no Brasil. Nesse sentido, levamos em consideração o impacto das informações transmitidas ao público leitor brasileiro do livro didático.
Poderíamos esperar encontrar formulações de uma identidade nacional alemã no Delfin, que é um livro cujo objetivo é a apresentação do alemão aos estrangeiros. Porém, não é o que acontece. Ele não se mostra partidário e fornece poucas informações acerca de costumes culturais típicos de determinadas regiões; um exemplo disso pode ser observado no capítulo sobre festas. As festas apresentadas não são típicas alemãs, são festas recorrentes em outras localidades, internacionalmente reconhecidas, tratam-se de festas globais. A Oktoberfest não é sequer mencionada. Parece que o livro não está preocupado em difundir estereótipos da cultura alemã. Ele pretende integrar-se às diferenças culturais em muitos âmbitos (gênero, etnia, classes sociais) para apresentar um país multicultural.  Nesse sentido, “ as identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades –híbridas- estão tomando seu lugar” .
No que tange à identidade nacional, é apresentada de forma diferente no livro. Aqui cabe o recurso aos tipos textuais que não comprometem os autores na apresentação da identidade defendida, um recurso que a história denomina Nova-história, esta sendo contada a partir da perspectiva de outrem, que se demonstra factível ou verossímil, mas ao mesmo tempo pode ser questionada por tratar-se de uma visão limitada daquele que a enxerga.
Assim, por meio da intervenção subjetiva de alguns personagens apresentam-se relatos de histórias particulares de vida, que podem ser traduzidos como a representação simbólica do sentimento de nação, de identidade nacional. Tal representação pode ser observada em apenas dois textos, que são totalmente subjetivos e, pretendem apresentar a visão de um integrante alemão acerca de fatos que dizem respeito à construção de sua identidade nacional alemã.
O primeiro deles é Liebe Farida. Trata-se de uma carta pessoal que discorre sobre os preparativos do período natalino em uma casa alemã. O segundo, Menschen: so alt wie die Bundesrepublik Deutschland, é uma entrevista de revista com um cidadão alemão que viveu o período da segunda guerra mundial e narra seu passado de forma saudosista.
A escolha dos tipos textuais, uma carta e uma entrevista, são fundamentais para que a identidade nacional ganhe espaço, uma vez que ela se personifica na figura do sujeito, construindo em ambos os textos, o discurso da cultura nacional que tem suas raízes no passado. Ao mesmo tempo em que tal uso desses tipos textuais, faz com que o livro não se responsabilize com o posicionamento da personagem; fica muito claro que ele acolhe diversas opiniões, mas não é o foco julgá-las. Desta forma, o livro compartilha com uma visão muito moderna ao considerar as diferenças identitárias como parte do processo de uma sociedade sem preconceitos, acolhedora e ética. O contato com o diferente é o primeiro passo para que saibamos respeitar uns aos outros, e a meu ver, os textos do Delfin contribuem para esta construção de sociedade.
É claro que não é suficiente que somente o livro trabalhe nesta direção, pois o professor constitui peça-chave para que tais visões globalizantes e desprovidas, ao máximo, de preconceito estejam em foco. Trabalhar o sentido do texto também é tarefa importantíssima para o aprendiz de LE, que muitas vezes limita-se ao significante das palavras e não estabelece coesão entre as mesmas ao longo da leitura. Faz-se importante trabalhar questões de forma crítica trazidas pelos textos para que os alunos aprendam a ler o mesmo com maior profundidade e senso crítico, para que não sejam decodificadores e tradutores de palavras, pois para tais tarefas, temos o computador e, que por sinal, é criticado por faltar justamente este quesito contextual, que nós, seres sociais e comunicativos possuímos. Sejamos, portanto, seres pensantes e críticos, máquinas já temos de sobra!

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

HALL,S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

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OKSAAR, Els. Problematik im interkulturellen Verstehen. In: Interkulturelle Wirtschaftskommunikation. 2ª.edição. iudicium verlag GMbh.München,1993.

SOUZA, P. C. de. Perspectivas de interculturalidade no ensino de alemão no Brasil. Dissertação de mestrado:UFMG, 2001.

STERN, H.H. Issues and Options in laguage teaching.(the cultural syllabus).Oxford, 1993.

TOMALIN,B.;STEMPLESKI,S. Cultural awareness. Oxford University Press.3a.edição,1996.

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