COMBINAÇÕES DE VERBOS COM PARTÍCULA

Mônica Nascimento Santos Nardy, doutora em Lingüística.
Colégio Cruzeiro-Jpa
fraunardy@yahoo.com.br

RESUMO: Análise não-lexicalista das combinações de verbos com partícula, usando como modelo de gramática a proposta da Morfologia Distribuída, que parte as sintaxe para explicar as diferenças semânticas na formação de palavras.

Palavras-chave: formação de palavras, sintaxe, morfologia distribuída.

 

Partículas são descritas como itens fonológica e sintaticamente autônomos,que se separam da raiz do verbo.
O uso de partículas na formação tanto de verbos quanto de nomes se mostra bastante produtivo na língua alemã.
Essas combinações de verbos dão origem a duas interpretações semânticas: combinações semânticas transparentes, cujas leituras são determinadas pelo significado de suas partes (hinaus werfen fora  jogar; jogar fora) e combinações semânticas idiomáticas cujo significado não é composto pelo significado das duas partes.

  1. Combinação transparente                             (2)  Combinação (semi)-idiomática
  1. hinaus werfen                                                   a. hinaus  werfen

  fora     jogar                                                         fora      jogar
‘jogar fora’                                                             ‘demitir’

  1. auf      machen                                                   b. auf      essen

aberto   fazer                                                        acima   comer
‘abrir’                                                               ‘comer tudo, limpar o prato’

  1.   weg          sein                                                 c.  auf    hören

a caminho  estar                                                    acima   ouvir
‘estar a caminho’                                                   ‘terminar’

No exemplo 2c o significado do verbo ouvir e o significado da partícula acima  parecem completamente perdidos e uma interpretação idiomática plena (‘terminar’) é atribuída à combinação. No exemplo 2b, por outro lado, o verbo essen contribui com seu significado  básico formando uma combinação semi-idiomática.
Diante dessas observações sustento a tese de que as diferentes interpretações semânticas das combinações de verbos com partícula são determinadas por suas estruturas sintáticas, que são também diferentes. 
Assumo para esta análise o modelo de gramática da Morfologia Distribuída (MD), proposto por Halle e Marantz (1993). Neste modelo a sintaxe precede a morfologia e a interpretação semântica. A formação de palavras na MD não se dá em um só componente da gramática (ou seja, o léxico não vem pronto),  mas é distribuída em 3 listas distintas. Na lista 1 temos os traços morfossintáticos; na lista 2 são inseridos os itens de vocabulário correspondentes aos traços selecionados na lista 1 e a lista 3 faz a leitura do composto formado.

Duas estruturas sintáticas
De acordo com a abordagem da MD na formação de palavras o falante seleciona morfemas abstratos na lista 1 ([raiz] [part.]) e realiza operações sintáticas e morfológicas, juntando esses traços selecionados. O complexo que resulta dessas operações é implementado na lista 2, com a inserção de peças vocabulares que satisfazem aos traços selecionados.
Neste ponto temos duas estruturas sintáticas:

Na estrutura 3a. a partícula é complemento do verbo. Em 3b   a partícula forma com a raiz do verbo uma outra raiz, ou seja, a partícula incorpora-se à raiz.
Essa informação morfossintática e fonológica será enviada para a lista 3 que, por fim, fará em 3a uma leitura composicional, ou seja, de todas as partes da palavra – leitura transparente e em 3b uma leitura idiomática de todo o conjunto – leitura idiomática.
O que favorece uma leitura ou outra é a relação semântica autorizada pela estrutura sintática. A interpretação semântica é realizada a partir das estruturas 3a e 3b geradas na sintaxe.
De acordo com a teoria da MD, não é a relação semântica do composto que licencia as combinações de verbos com partícula, mas sim a configuração sintática deste composto é que determina se ele receberá uma interpretação transparente ou idiomática.

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
HALLE, Moris & MARANTZ, A. Distributed Morphology and the Pieces of Inflection. In: The View from Building 20. ed. Kenneth Hale and S. Jay Keyser. MIT Press, Cambridge, p.111-176, 1993.

MÜLLER, Gereon. Argumentkodierung VI: Distribuierte Morphologie. Universität Leipzig, 2006.

NARDY, Mônica N. S. A sintaxe no interior das palavras: efeitos de gênero na língua escrita contemporânea. Tese (Doutorado em Lingüística), UFRJ, Rio de Janeiro, 2007.

WURMBRAND, Susi. The Structure(s) of Particle Verbs. Draft. 2000.