SO FAR, SO CLOSE: TRADUZINDO O MUNDO NUM MUNDO EM RELAÇÃO
Prof. Dr. Mauricio Mendonça Cardozo (UFPR)
Resumo
Este artigo tem por objetivo apresentar os pressupostos críticos de um projeto de tradução da obra Der Schimmelreiter (1888), do escritor e poeta alemão Theodor Storm, que consistiu na realização de duas traduções diferentes da referida novela: A Assombrosa História do Homem do Cavalo Branco (STORM, 2006a) e O Centauro Bronco (STORM, 2006b). Partindo de uma compreensão da prática tradutória como uma prática de construção de relação e, por tanto, como atividade de ordem crítica, o projeto objetivou explorar duas possibilidades críticas de tradução da obra de Storm: a primeira, que tendo em vista o contexto brasileiro de recepção da obra, explora predominantemente as relações com a obra e o contexto alemão; e a segunda, que sem perder do horizonte as relações com a obra alemã, explora predominantemente as relações com o contexto brasileiro.
Palavras-chave: tradução literária; relação; projeto de tradução; crítica; Theodor Storm;
It is the trope of our times to locate the question of culture
in the realm of the beyond.
Homi Bhabha (2004: p.1)
A questão da tradução, sendo necessariamente tanto uma questão de linguagem quanto uma questão de cultura, coloca-se nesse lugar definido por Bhabha como uma esfera do além, como um lugar que transcende a noção do local em sua acepção clássica. Tal proposição Bhabhiana abre-nos uma possibilidade de reformular a noção de espaço cultural, literário e lingüístico, que deixa de ser entendido como algo estático, limitado e fechado, para ser compreendido como algo dinâmico, liminar e em incessante construção.
Essa compreensão da noção de espaço implica também em uma outra compreensão das práticas sociais e discursivas – a tradução sendo uma delas –, já que essas práticas não podem mais ser tomadas apenas como práticas no espaço, no sentido de uma ação que ocorreria num determinado espaço sem nele interferir. Na medida em que o espaço passa a ser entendido como uma entidade dinâmica, como algo que se instaura e se constrói na prática, as práticas passam a determinar a condição do lugar: de um lugar em que se dá a construção, a manutenção e a inovação do espaço. Daí dizermos que espaço e prática são noções interdependentes e, portanto, fundadas num princípio de relacionalidade. A noção de relação assume, assim, uma centralidade e pode ser entendida como um dos princípios fundamentais das práticas discursivas.
Cabem aqui algumas breves palavras sobre a questão da relação.
Na natureza, o homem habita uma condição de fechamento, que representa sua finitude. Ser humano pressupõe a experiência de uma abertura que tem lugar como relação na linguagem. Na condição de fechamento, não há confronto com o outro. A relação emerge aí como mecanismo central da significação, através do qual o mundo pode ser significado e, a partir de então, existir como o mundo em que vivemos. Ao promovermos essa abertura ao outro, vivenciamos um esforço potencial de construir um espaço humano que exceda o espaço da physis, um espaço humano onde o homem é desafiado ao convívio, um espaço humano que chamamos de cultura.
Mas a noção de relação não pode ser entendida em termos ideais. Pois a relação não ocorre como um encontro ideal com o outro, como consumação do face-a-face. Na relação, o homem é impelido não apenas a perceber e alcançar o outro, mas também a significá-lo como o outro. É na relação que o homem constrói a alteridade do outro, da qual emerge tanto a diferença quanto a percepção do próprio. Nesse sentido, a noção de relação não implica na possibilidade real de apreender o outro, de tocá-lo realmente, de alcançar algo que exceda nossa própria inscrição na condição humana. A percepção do outro, poderíamos arriscar, não é senão a porção mais remota da percepção de si mesmo.
A despeito disso tudo, não podemos perder de vista que há linguagem, há cultura e há um espaço humano habitado por seres humanos, o que significa dizer que – embora considerada teoricamente impossível do ponto de vista de uma realização ideal – a relação tem lugar e, de algum modo, funciona. Uma visada idealizada da noção de relação poderia conduzir-nos à impressão de estarmos diante de um paradoxo. No entanto, tal impressão paradoxal pode ser minimizada ao levarmos em conta o fato de que a relação – esse ato fundador das práticas sociais, culturais e discursivas – tem uma natureza liminar.
É como liminaridade que o homem vivencia a alteridade, a diferença e os limites do próprio. E assim constrói fronteiras e limites na relação com o próximo, na linguagem e na cultura, estabelecendo também, a partir delas, sua dimensão de identidade. A partir do momento em que assumimos o fato de que essas fronteiras surgem não em virtude do encontro de duas entidades delimitadas por si só, mas sim, em virtude da natureza liminar da relação, abre-se a possibilidade de promovermos uma mudança de perspectiva. Pois essas fronteiras – do eu, da língua, da cultura – não seriam entendidas mais como limites que devemos transcender para vivenciarmos o outro, mas sim, como o próprio espaço liminar de relação, como o espaço que habitamos e que se abre para nós como possibilidade de convívio. Em outras palavras, ao invés de pensar em concentrarmos nossos esforços num movimento que objetiva transcender esses limites, podemos pensar que nossos esforços se concentram na aceitação de uma condição de liminaridade e que a nós nos cabe explorar esse espaço liminar como o próprio lugar da relação.
Tanto a concepção Bhabhiana de entre-espaço (space in-between), como um espaço intersticial ou liminar (BHABHA 1994), quanto o uso que Marilyn Gaddis-Rose (1997) faz da noção de espaço interliminar reforçam a idéia de um espaço cultural e literário como lugar da relação. Entendo que compreensões como estas sejam fundadoras da dinâmica de práticas sociais, culturais e discursivas em geral, mas é no caso especial da tradução – em especial no sentido da tradução cultural e literária – que podemos vivenciar de forma mais radical as possibilidades e os limites desses pressupostos teóricos. Nesse sentido, assumir esses pressupostos significa considerar a tradução como um caso paradigmático de relacionalidade e interliminaridade e, a partir disso, levar em conta o fato de que a tradução pode ser concebida como o próprio paradigma da relação.
Podemos entender a tradução tanto como um modo de equacionar relações quanto como o próprio lugar em que se dá a relação, como locus da relação. A idéia de pensar a tradução a partir de sua relacionalidade não é nova. Já na conferência “Sobre os diferentes métodos de tradução”, de 1813, o filósofo e teólogo alemão Friedrich Schleiermacher sistematizaria duas abordagens de tradução com base no modo como dispõem em relação o autor e o leitor. Ao fazer tal proposição, em grande medida tributária do pensamento de Herder, Schleiermacher promove um deslocamento no modo tradicional de se pensar a tradução, deixando de fundar seu pensamento em ideais estritamente retóricos ou em alguma das inúmeras versões da dicotomia letra-espírito, para articulá-lo a partir do modo como a tradução instaura uma determinada relação entre leitor e autor, entre duas línguas, entre duas culturas.
Como afirma Venuti (1995: p.20), Antoine Berman (2002) “tratará a discussão de Schleiermacher como uma ética da tradução, preocupada em tornar o texto traduzido um lugar em que um outro cultural se manifesta”. A ética Bermaniana é formulada como defesa da essência da tradução e está diretamente ligada à noção de relação. Pois, para o tradutor e teórico francês, se a tradução não pode ser relação, ela não é nada (BERMAN 1984).
No caso particular da prática tradutória, explorar o espaço de relação é uma questão ética e pode se manifestar como demanda por um tratamento crítico dessa prática, dizendo respeito ao leitor, ao tradutor e ao crítico de tradução. Essa visada crítica pode ter em vista questões políticas e ideológicas, como no caso da reflexão empreendida por Venuti, que funda sua prática tradutória e crítica em estratégias discursivas articuladas em torno das noções de domesticação e estrangeirização. Mas essa visada crítica demanda também uma leitura crítica de tradução que pressupõe a habilidade de ler traduções efetivamente como traduções, habilidade esta que, como afirma Berman (1995), não são inatas, é preciso desenvolver.
O esboço metodológico para uma Crítica de tradução literária, proposto por Berman em sua obra póstuma intitulada Pour une critique des traductions (1995), a leitura sintomática de textos traduzidos, proposta por Venuti (1995), bem como a leitura estereoscópica, proposta por Marilyn Gaddis-Rose (1997), representam, juntos, tentativas de olhar para a tradução a partir de sua condição interliminar e como espaço de relação. Ao invés de limitar e concentrar seus esforços em fazer grandes inventários de diferenças entre os textos de partida e de chegada, esses teóricos voltam o foco de sua leitura para a relação que a tradução equaciona entre os dois textos e para a discussão do significado ético, ideológico e crítico das diferenças.
Tomando por base esses pressupostos teóricos, gostaria agora de apresentar e discutir muito brevemente o meu projeto de tradução da novela Der Schimmelreiter (1888), de Theodor Storm, do alemão para o português brasileiro.
O poeta e novelista alemão Theodor Storm (1817-1888) integra o rol de escritores canônicos de língua alemã. Tendo sido um escritor muito famoso na Alemanha do final do século XIX, sua obra é uma das expressões mais representativas do assim chamado realismo poético. A despeito disso, seus escritos são praticamente desconhecidos no Brasil, onde ainda ocupa um lugar meramente marginal.
A novela Der Schimmelreiter é considerada sua obra-prima. Encetada no cenário frio das costas baixas da Frísia do Norte, na forma de uma narrativa densa e sofisticadamente estruturada, de tom não raro obscuro e fantasmagórico, quase gótico, a novela narra a história de ascensão social de um jovem pobre que, no século XVIII, torna-se Senhor dos Diques e, enfrentando a resistência da comunidade, propõe um novo modo de construção de diques.
A força narrativa da obra de Storm consiste em sua habilidade para explorar profundamente o desejo humano, sobretudo em duas frentes de conflito: o conflito com as forças da natureza, uma vez que ao construir diques e conquistar novas terras, o homem desafia o poder onipresente do Mar do Norte; e o conflito com o conservadorismo da comunidade em que ele vive, que parece resistir a qualquer tipo de inovação.
Também é característica na obra de Storm a sua preocupação com a linguagem, sintomática já de uma concepção moderna de literatura. Não se restringindo a uma visão meramente instrumental, a linguagem se torna, em Storm, o próprio lugar em que homem e espaço são construídos. Isso significa que a sensação rítmica, as figurações alegóricas e até mesmo a obscuridade ou a expressão apoteótica de algumas passagens podem ser lidas como estando a serviço dessa construção espacial. Além disso, como a narrativa se passa numa região marcada por grande diversidade lingüística, em que a língua representa um dos traços identitários mais importantes, Storm também trabalha essa diversidade em sua obra, variando os registros segundo o status social das personagens.
Traduzir a novela de Storm no Brasil significa oferecer ao público leitor brasileiro a obra de um escritor que é praticamente desconhecido por aqui, a despeito de seu status canônico na cena literária alemã. A propósito, é preciso levar em conta que a literatura alemã em geral é quase desconhecida no Brasil. Os esforços tradutórios parecem quase sempre se concentrar em autores canônicos do século XX – e mesmo nesses casos, apenas em suas obras mais canônicas. Nesse sentido, propor a tradução de uma obra como a novela de Storm já representa, em alguma medida, um ato de resistência às tendências homogeneizantes do mercado editorial mundial.
Este projeto de tradução da novela de Storm tem em vista: por um lado, pôr em questão o locus marginal desse recorte da literatura de língua alemã no Brasil, explorando produtivamente pontos de convergência entre as literaturas e culturas alemã e brasileira; por outro lado, pôr em discussão os próprios limites e possibilidades da tradução literária.
Em termos práticos, trata-se de um projeto que consiste em realizar duas traduções diferentes da novela alemã e em publicá-las como um só conjunto, como uma unidade.
A primeira tradução leva o título de A Assombrosa história do homem do cavalo branco. A escolha pelo título leva em conta a primeira tradução para o português, realizada nos anos 50 por João Távora e intitulada O homem do cavalo branco. A edição inclui um posfácio que apresenta o escritor alemão e sua obra, bem como algumas poucas notas que cumprem o fim de informar o leitor sobre as especificidades do espaço físico da Frísia do Norte.
A segunda tradução leva o título de O Centauro Bronco. Nesse segundo caso, promovi um deslocamento geográfico, traduzindo o espaço da Frísia do Norte no espaço árido e ermo do interior do Nordeste brasileiro: no sertão. Essa região, como sabemos, manifestou uma produtividade imensa como cenário da ficção brasileira na primeira metade do século XX. Obras canônicas, como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Os sertões, de Euclides da Cunha, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, constroem suas narrativas no espaço humano e geográfico do sertão. O Centauro Bronco reencena a narrativa alemã no sertão ficcional da literatura brasileira. A edição inclui um posfácio que apresenta as linhas gerais do projeto de tradução.
O projeto de tradução funda-se em três questões centrais: uma teórica, uma crítica e uma sócio-cultural.
A questão teórica diz respeito à discussão dos valores miméticos de identidade e alteridade que fundam uma certa noção de tradução tradicionalmente vinculada a pressupostos perpetuados no e pelo senso comum. Nesse contexto, oferecer um texto como tradução não significa senão oferecê-lo como um texto que pode ser lido fazendo as vezes de outro texto. A mediação do tradutor, porém, é ignorada extensivamente e a transparência passa a ocupar o lugar de valor central: não diretamente no sentido de uma defesa hegemônica de valores domésticos, mas como defesa do direito de acesso à identidade do original via tradução. Em outras palavras, leitores de tradução desejam ler o mesmo texto e sua noção de mesmidade não suporta a diferença.
Ao oferecer duas traduções diferentes da mesma obra alemã, tenho em vista oferecer diferentes jogos de leitura, que entendo como diferentes possibilidades de explorar o espaço de relação que se instaura a partir da leitura desses textos. Isso significa que muitos leitores poderão optar pela leitura de apenas uma das traduções. Outros leitores poderão ler ambas as traduções e ficar tentados a compará-las. E alguns poucos leitores poderão ainda ler ambas as traduções e sentir-se movidos a compará-las com o texto em alemão. O primeiro ponto, aqui, é tornar explícito o fato de que há diferentes possibilidades de leitura dessa obra, o que, por sua vez, poderia levar os leitores a perceber que há diferentes possibilidades de traduzi-la.
O eixo de articulação dessa questão é o fato de eu oferecer ambos os textos como traduções. É provável que O Centauro Bronco seja recebido mais como uma adaptação do que como uma tradução, provocando imediatamente uma discussão sobre as diferenças entre tradução e adaptação. Esta seria uma discussão legítima e produtiva, mas não é exatamente a discussão que tenho em vista promover com essa proposta.
A leitura da Assombrosa, encetada no contexto da Frísia do Norte, parece provocar uma impressão imediata de que a narrativa se constrói num espaço que é muito próximo ao contexto da obra alemã, mas muito distante do contexto brasileiro. O Centauro, por sua vez, encenado no sertão da ficção brasileira, parece provocar uma impressão imediata de que a narrativa se constrói num espaço que é muito distante do contexto da obra alemã, mas extremamente próximo do contexto da literatura brasileira. O segundo ponto, aqui, é desafiar os leitores que tenham lido ambas as traduções a se perguntarem se não seria possível dizer que, em alguma medida, eles leram duas vezes a mesma novela, a despeito de todas as diferenças explícitas entre elas. Essa discussão poderia conduzir os leitores a questionar uma noção de tradução baseada exclusivamente na pressuposição da semelhança, tendo em vista que coisas muito diferentes também podem fazer as vezes de tradução uma da outra. Entendo que esse tipo de questão não seja tão diferente do que ocorre no mundo do teatro. Alguém pode ter assistido a duas montagens completamente diferentes do Mercador de Veneza, mas mesmo assim ainda referir-se a elas como duas montagens da mesma peça de Shakespeare. Por que isso tem de ser tão diferente no mundo da tradução?
A segunda questão sobre a qual se funda este projeto de tradução diz respeito à Crítica e tem em vista explorar pontos de aproximação entre os contextos literários alemão e brasileiro. Nesse sentido, relaciona-se mais imediatamente com O Centauro Bronco. Em síntese: Theodor Storm inscreve sua obra nos limites regionais do norte da Alemanha. O mesmo ocorre com escritores brasileiros como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Graciliano Ramos em relação ao sertão. Mas para além de uma inscrição lingüística, cultural, social e geográfica nos limites de um espaço regional, o fato é que todos esses autores também conseguem transcender essa esfera do regional e discutir os conflitos humanos universalmente.
Nesse sentido, ao traduzir a novela alemã no espaço físico e humano do sertão construído nessas obras da ficção brasileira, tenho em vista promover uma aproximação de ambos os contextos literários, explorando questões convergentes, conflitos e tropos, assim como os modos como as obras logram transcender a esfera do local.
Já a questão sócio-cultural está centrada na discussão em torno da possibilidade do progresso, indo portanto além da esfera da narrativa. No Schimmelreiter, o desejo de um homem por inovação se traduz em progresso. O jovem Senhor dos Diques enfrenta todo tipo de resistência: da ordem do irracional, do político e do conservadorismo. Ele sofre um fim trágico, sua história sobrevive apenas como mito, mas seus feitos têm um impacto positivo para a comunidade onde vivera. Ao fim e ao cabo, a implementação de uma nova forma de dique redimensionaria completamente a relação homem-natureza em toda a região.
No contexto social do nordeste brasileiro, o homem também é desafiado pelo poder da natureza e vivencia seus efeitos devastadores. Muitas inovações tecnológicas poderiam transformar o modo de vida de grande parte da região, tirando o homem de uma condição de mera sobrevivência. Mas a possibilidade do progresso parece sempre conflitar com o conservadorismo e com interesses políticos dos poucos que de fato ditam as relações de poder na região.
O ponto central aqui é o fato de que a obra alemã se refere a relações sociais típicas do século XVIII, portanto, mais de duzentos anos distantes do contexto alemão contemporâneo, enquanto o contexto social retratado em O Centauro Bronco ainda hoje é muito semelhante ao que ocorre em grande parte do sertão nordestino. Assim, ao aproximar ambos os contextos, tenho em vista pontuar esse desinteresse político que diminui as possibilidades de progresso e mantém uma boa parte do Brasil no mais remoto passado.
Cabem aqui também algumas considerações sobre aspectos mais práticos das duas traduções.
O título da novela foi o primeiro problema de tradução. Der Schimmelreiter refere-se literalmente à figura de um cavaleiro que cavalga um tordilho. Mas ainda que o título seja traduzido como O homem do cavalo branco, é preciso levar em conta que Schimmelreiter não é apenas a soma de Schimmel mais Reiter, mas também a designação especial para uma figura legendária e fantasmagórica da cultura da Frísia do Norte, que costumava aparecer sempre que uma tempestade ameaçava os diques. Além disso, um leitor desavisado poderia, a partir do título, relacionar o homem do cavalo branco à figura prototípica do príncipe encantado, que surge cavalgando seu cavalo branco para salvar a princesa – o que, de certo, muito provavelmente resultaria em uma frustração de expectativa.
Como já mencionei, ao dar o título para a primeira tradução de A assombrosa história do homem do cavalo branco, tive em vista fazer uma relação com a tradução já publicada e intitulada O homem do cavalo branco. Procurei enfatizar no título, assim como ao longo de toda a tradução, a dimensão fantasmagórica da obra. Ao fazer isso, entendo pontuar uma dimensão da obra que a tradução anterior não parecia levar tão centralmente em consideração. Ao mesmo tempo, entendo ter minimizado o risco de criar falsas expectativas de leitura.
No título da segunda tradução, bem como ao longo de todo o texto traduzido, procurei enfatizar a relação com o contexto literário brasileiro. O Centauro Bronco – uma expressão usada primeiramente por José de Alencar e depois consagrada por Euclides da Cunha em sua obra-prima – é uma figuração mítica do homem prototípico do sertão: o sertanejo, um homem tão intimamente relacionado com seu cavalo que parece formar com ele uma só criatura, à imagem de um centauro. Ao fazer referência a essa figura, entendo pontuar também essa dimensão legendária da personagem da novela.
Construir ambientes e relações espaciais num mundo fictício constitui sempre um grande desafio, especialmente quando o espaço físico adquire uma dimensão tão central na narrativa, como é o caso da obra de Storm. Em alemão, o autor enfrentou o desafio de ficcionalizar a paisagem da Frísia do Norte: um mundo que é percebido pelos leitores alemães como muito similar ao mundo real que eles conhecem. Na Assombrosa, senti-me diante do desafio de construir em português um espaço ficcional que será percebido pela maioria dos leitores brasileiros como um mundo imaginário, como um mundo que eles não conhecem. No Centauro, ao traduzir a Frísia do Norte no Sertão Nordestino, senti-me diante do desafio de construir um outro espaço ficcional, mas um espaço que muito provavelmente será percebido pelos leitores brasileiros como conhecido, seja por sua experiência de vida, seja por sua experiência de leitura.
Ao proceder tal deslocamento geográfico, senti-me diante do desafio de equacionar algumas relações muito pouco usuais, traduzindo inundação por seca, dique por açude, sol por chuva, frio por calor, e assim por diante.
Como já mencionei antes, a linguagem é uma questão central neste projeto, em especial do ponto de vista de seu potencial para dar forma aos espaços de relação. Com base nisso, desenvolvi estratégias discursivas diferentes para representar a espaço físico peculiar tanto da Frísia do Norte, em A Assombrosa, como do sertão nordestino, em O Centauro.
Na Assombrosa, procurei criar uma narrativa que conduzisse o leitor a uma impressão de frieza, de ambientação plana e vasta, onde os olhos se projetam na distância e se perdem no horizonte:
Foi numa tarde de outubro, na década de trinta do século XIX – assim começava o narrador daquela história. Eu cavalgava ao longo de um dique, na Frísia do Norte, sob forte tempestade. À esquerda, acompanhava-me, agora há mais de uma hora, a vargem deserta e vazia de todo gado. À direita, numa proximidade das mais incômodas, estendiam-se os vastos baixios do Mar do Norte. Já se deveria poder avistar do dique as ilhas e croas, mas eu não via senão as ondas escuras que, como esbravejassem, quebravam insistentemente sobre o dique, molhando cavalo e cavaleiro com sua espuma pardacenta. Ao fundo, a desolação do crepúsculo impossibilitava distinguir terra e céu. A lua crescente já ia alta, parcialmente encoberta pela passagem sombria das nuvens. Fazia muito frio. Minhas mãos amortecidas mal davam conta de segurar a guia. Não podia culpar os mergulhões e gaivotas ruidosos que, aos crocitos e grasnados, deixavam-se levar terra adentro pela ventania. A noite vinha caindo e eu já não tinha mais certeza de ver nem mesmo os cascos do meu cavalo. Não encontrei vivalma. Não ouvia senão o furor do vento e das águas e a algazarra das aves, que quase roçavam suas longas asas em mim e em minha fiel montaria. Não nego o quanto então desejei-me num lugar mais abrigado (STORM 2006: p.7-8).
No Centauro, procurei criar uma narrativa que conduzisse o leitor a uma impressão de aridez, de ambientação entrecortada e emaranhada, onde os olhos não conseguem ver senão as coisas que se dispõem imediatamente a sua frente:
O caso passou em dias de outubro – assim começava o narrador daquela história –, princípios dos oitenta. No lombo do cavalo, seguia de mim o dorso da barragem, ardendo sob o sol do semi-árido. Há mais de hora me acompanhava, no beiradeável da jusante, o abandonado de toda criatura – o ermo, regente, tomado aos garranchos pela catinga. Doutro lado, marginando o devorado da montante, a sequidão rebentava seus vazios. Ali, à beira do grande açude, quedê deparar no avistado algo de lago ou poça? Quiçá do antigo leito os rios vazados? Mas não, mas nada. Enxergava senão as ondas de mormaço gritarem da terra incandescente, golpeando o que teimasse em existir. Aos poucos, pra desatino de cavalo e homem, a desolação do crepúsculo marcava o confundível; terra nem que céu. No alto, um fiapo de lua anunciava a noite desnuda de nuvens, sem descuidar seus ardores. E as arribações, um só pássaro compasso selevante nas correntes de ar. Minhas mãos suadas mal podiam com as rédeas. A vermelhidão do poente breava o dia, descaindo o toldo da noite e rareando na vista o chão pisado. Não deparei vivalma. Ouvia a garalhada das aves, ouvia das asas o doido de bater, por cima de mim e do montado. No mais, nada mais. Não nego o quanto então me quis noutro lugar (STORM 2006b: p.11-12).
Para concluir, retomo as palavras de Homi Bhabha: “Estar no ‘além’ é habitar um espaço de intervenção [...] e é o espaço de intervenção instaurado nos interstícios culturais que introduz a invenção criativa na existência” (BHABHA 1994: p.12).
Bibliografia
BERMAN, A. A prova do estrangeiro, tradução de Maria Emília P. Chanut. Bauru: EDUSC, 2002.
_________. Pour une critique des traductions. Paris: Gallimard, 1995
Bhabha, H. The Location of culture. Londres: Routledge, 1994.
Gaddis-Rose, M. Translation and Literary Criticism. Manchester: St. Jerome, 1997.
Storm, T. A assombrosa história do homem do cavalo branco, tradução de Mauricio M. Cardozo. Curitiba: Editora UFPR, 2006.
_________. O centauro bronco, tradução de Mauricio M. Cardozo. Curitiba: Editora UFPR, 2006b.
Venuti, L. The translator’s invisibility. Londres: Routledge, 1995.
_________. The scandals of translation. Londres: Routledge, 1998.

