Landeskunde no ensino do “Alemão para fins específicos” (AFE)
Dra. María Labarta Postigo
Universidade de Valência (Espanha)
RESUMO:
Na nossa sociedade o AFE tem cada vez mais importância. A prova disso é a demanda cada vez maior e a grande oferta de cursos como p.e. Wirtschaftsdeutsch. Está demonstrado que a aprendizagem de um idioma não pode ser reduzida à aquisição de certo vocabulário e algumas estruturas linguísticas. Aprender um idioma constitui um processo global, no qual o estudante entra em contato com uma forma particular de comportar-se em uma sociedade concreta. Especialmente em contextos profissionais, o domínio dos fatores interculturais é de extrema relevância. P.e. no alemão econômico empresarial, a interação é fundamental, já que as conseqüências derivadas de um erro intercultural podem acarretar não só o fracasso de uma relação pessoal, mas também de uma relação profissional, em uma negociação. Veremos aqui os principais conteúdos socioculturais no ensino de AFE e ilustraremos com exemplos algumas possibilidades de aplicação nas aulas.
Palavras-chave: ensino de alemão como língua estrangeira, alemão para fins específicos, Landeskunde, interculturalidade.
1. Introdução
A maioria dos professores de línguas estrangeiras tem consciência da importância de fatores socioculturais no relacionamento entre pessoas de diferentes comunidades lingüísticas, e, portanto, de que a aprendizagem de uma língua não pode ser reduzida à aquisição de um vocabulário ou de estruturas lingüísticas. Na verdade, a aprendizagem de uma língua é um processo global, em que o estudante entra em contato com uma determinada forma de entender o mundo e de agir numa sociedade como se dela fizesse parte. Isso ocorre porque as línguas não são sistemas abstratos desvinculados da realidade. Uma língua é um instrumento de comunicação social e, por conseguinte, não pode ser separada do contexto sociocultural em que funciona.
Vou começar com a tradução (da autora) para português de um exemplo muito interessante de Eva M. Nertinger sobre interculturalidade (NERTINGER 2002: 3):
“Um japonês, um americano dos Estados Unidos e um alemão vão a um restaurante em Hamburgo (Alemanha). Os três pedem um hambúrguer. O cozinheiro, distraído, deixa a carne tempo demais no fogo e a serve “meio queimada”, porém coloca um pouco de salada e um pãozinho no prato.
Evidentemente os três clientes percebem que a carne está passada demais. Mas como é a reação de cada um deles?:
O alemão provavelmente criticaria a carne e não falaria nada sobre o resto.
O americano também criticaria a carne, mas provavelmente elogiaria a salada e o pão. Ou seja, usaria os denominados “softners”.
O japonês, pelo contrário, se o moço perguntasse se ele gostou, elogiaria a salada e o pão, mas não diria nada sobre a carne.
Num contexto japonês seria evidente que alguma coisa estava errada com a carne. Só que o alemão, sem conhecimentos sobre aquela cultura, pensaria que o japonês teria achado a carne excelente, já que ele só falou positivamente...(mas não de tudo!!!).
Os alemães, com a sua forma direta de atuar e de dizer o que acham, são gewöhnungsbedürftig. Porém, esse jeito tão direto agrada a algumas pessoas. Pelo menos sempre se sabe o que eles estão pensando.”
A pergunta é: como reagiria um brasileiro nesta situação? Seguramente, não da forma direta do alemão. E como o brasileiro interpretaria o comportamento do alemão (no caso de não conhecer a cultura alemã)? Pode até parecer mal-educado ou grosseiro, quando na verdade o alemão só está se comportando conforme a sua cultura: ele está simplesmente querendo dizer o que pensa de forma direta (coisa que o brasileiro normalmente evita). O importante neste exemplo para qualquer um dos três personagens era ter um saber implícito sobre os outros, já que certos elementos da comunicação / informação não se encontram nos aspectos lingüísticos da mesma, porém no contexto total. E só através de conhecimentos sobre a cultura dos outros parceiros é possível interpretar as suas mensagens.
Assim, as diferenças apresentadas podem resultar em avaliações incorretas sobre as pessoas e podem dar lugar a erros interculturais. Sabe-se que os erros interculturais são até mais graves que os lingüísticos, já que o falante nativo não tem consciência de que o interlocutor estrangeiro está cometendo um erro, pois na sua cultura de origem funcionam valores diferentes e a tendência é pensar que alguma coisa está errada com a outra pessoa.
Em geral, somos incapazes de interpretar adequadamente esse tipo de erros porque quando aprendemos uma língua estrangeira, recebemos instruções sobre as diferenças sintáticas e morfológicas entre a língua materna e a língua estrangeira, mas normalmente não recebemos informações sobre as diferenças culturais entre comunidades socioculturalmente diferentes.
Especialmente em contextos profissionais, o domínio dos fatores interculturais é de extrema relevância. No alemão econômico-empresarial, a interação é fundamental, já que as conseqüências derivadas de um erro intercultural podem acarretar não só no fracasso de uma relação pessoal, mas também de uma relação profissional em uma negociação.
Dessa forma, o trabalho dos conteúdos socioculturais não só nos permitirá dar uma formação aos nossos aprendizes, para eles se desenvolvam com sucesso na comunicação como falantes de alemão num contexto profissional, mas também para prevenir possíveis erros interculturais.
2. Alemão para Fins Específicos (AFE)
O alemão para fins específicos (AFE) é comparado freqüentemente com o alemão instrumental (geral); linguagem especial ou especializada é o valor conceptual que se dá a uma possível variedade de uso lingüístico, o que exige a existência de uma linguagem geral. No que diz respeito à relação entre o alemão geral e o AFE, segundo (Sager, Dungworth & McDonald: 1980), podemos destacar algumas características essenciais:
O AFE não é diferente do alemão geral como sistema lingüístico. A língua é em ambos os casos a mesma.
O uso do AFE corresponde a uma configuração de variáveis situacionais determinadas pela matéria da especialidade na qual se manifesta.
As variáveis do uso lingüístico, que determinam os contextos das matérias da especialidade permitem ao mesmo tempo referirmo-nos ao AFE como um sistema quase-autônomo; portanto, com identidade própria.
A razão de ser do AFE vem determinada pelas necessidades comunicativas que estabelece a disciplina da especialidade.
Uma vez estabelecidas as diferenças entre o alemão geral e o AFE, concentrar-nos-emos nos fins específicos que buscamos atingir neste artigo: “Alemão para turismo” e “Alemão econômico empresarial”, para finalizar com um exemplo de exercício para a aula.
3. Alemão para Turismo (AT)
Sobre o alemão turístico existem menos publicações e estudos que sobre o AFE. Porém, alguns temas sobre o contexto turístico aparecem em manuais de AFE, (p. e. como parte das viagens de negócios, é tratado o intercâmbio de conversação na recepção do hotel ou na agência de viagem, mas isso é só uma pequena parte da totalidade do tema. Uma explicação para esta falta de pesquisa neste âmbito é considerar que o alemão para turismo (AT) constitui um tipo de linguagem específico e oferecê-lo como matéria de estudos é um fenômeno muito recente. Por tal razão é uma linguagem especifica ainda pouco analisada e sobre a qual apenas existem descrições científicas.
A expressão “Alemão para Turismo” (AT) corresponde a um tipo de alemão específico, o Fachsprache, que, dentro da classificação básica de Fluck (ciência, técnica, economia) seria difícil de colocar, já que não é uma linguagem científica, nem exclusivamente econômica, porém situada entre a técnica e a economia. Em outras classificações mais detalhadas é o equivalente ao termo alemão Fachsprache Tourismus.
Vamos tentar aqui aproximarmo-nos do significado e da estrutura do AT com a finalidade de caracterizá-los de forma geral e delimitar os objetivos que abrangem o campo de ensino. Em principio, quando falamos de AT, podemos pensar num nível lingüístico de subsistência que uma pessoa precisaria para interagir em situações comunicativas básicas: hotéis, restaurantes, agências de viagem (neste caso como falante de português com turistas de alemão como L1). No âmbito de fins específicos, porém, o termo se aplica aos conhecimentos específicos da língua e da cultura alemã fundamentais para um profissional que atua no setor do turismo.
Desse ponto de vista, o nível de subsistência só é aceitável para desenvolver as atividades mais elementares, já que o profissional do turismo deverá adquirir um bom nível do idioma, tanto geral como específico. As necessidades de aprendizagem variam segundo o tipo de profissão. O setor do turismo abrange trabalhos bem diferentes: desde direção de hotéis ou agências de viagens, organização de empresas turísticas internacionais até atenção ao público na informação sobre pontos turísticos. Se bem que, qualquer que seja o trabalho dos futuros estudantes de AT, a parte sociocultural é também imprescindível, porque sempre haverá uma relação direta com falantes de alemão, bem como com clientes (p. e. no ponto turístico ou na recepção de um hotel) ou com parceiros numa negociação de um projeto.
Portanto, a competência lingüística do estudante de AT deve ter como fundamento, além dos conhecimentos técnicos da especialidade (p.e. uso de siglas internacionais, p. e, ITB (Internationale Tourismus Börse); abreviaturas, p. e. DZ (Doppelzimmer), HP (Halbpension), e anglicismos, p. e., all inclusive, last minute) a especificidade sociocultural do contexto alemão e dos destinos turísticos e de trabalho. A projeção internacional do AT é, por esta razão (de conteúdo), superior à que se dá em outros setores profissionais.
O destino cultural de um profissional pode ser, em princípio, de dois tipos: um país onde se fale o alemão ou uma experiência com turistas alemães, sendo esta última a possibilidade mais provável. Portanto, serão necessários, de um lado, conhecimentos sobre os aspectos culturais dos países de idioma alemão e, de outro lado, dominar também os aspetos culturais da região do destino do turismo alemão do ponto de vista geográfico, turístico, social e cultural.
Outra característica da comunicação no contexto de AT refere-se ao contato com o público. Como no caso de AFE, o AT tem duas vertentes de uso: o alemão social e o alemão transacional (a diferença entre linguagem social e linguagem transacional foi estabelecida por Levinson (1983) em Pragmatics). A parte social inclui os aspectos de socialização e se usa basicamente no nível oral, p. e. em conversação com um cliente ou representante de outra empresa Em aspectos gerais pode ser caracterizada da seguinte forma:
- uso de formas rotineiras de intercâmbio:
A: Hatten Sie einen guten Flug?
B: Ja, vielen Dank!
- uso de fórmulas de saudação rotineiras:
A: Darf ich vorstellen? Das ist Frau König, vom Pallas Hotel und das ist Herr Suprack von der Firma GOL.
B: Guten Tag, sehr angenehm!
C: Guten Tag, ganz meinerseits!
Estes exemplos constituem uma pequena mostra do que se pode caracterizar, em termos gerais, como um estilo adotado para esse meio, que além de ser cortês, é breve e direto. Evidentemente, a necessidade de transcender esse tipo de comunicação social em nível internacional exige conhecimentos culturais específicos da conduta lingüística dos países com os quais mantemos relações, nesse caso, os de língua alemã.
O aspecto transacional se refere à parte mais técnica, p.e. na confecção de um folheto informativo de um ponto turístico ou num contrato entre empresas turísticas.
O componente sociocultural é essencial em ambos os casos. O estudante precisa adquirir uma competência intercultural e dominar: a identificação e a superação dos estereótipos relativos à cultura estrangeira (alemã); a capacidade de identificar as particularidades da cultura estrangeira, tanto em relação à sua própria como a outras que já conheça; o conhecimento de comportamentos sociais da outra cultura e a capacidade de atuar em diversas situações interativas.
4. Alemão Econômico Empresarial (AEE)
O ensino de línguas para fins econômico-empresariais começou no final dos anos oitenta. Atualmente, cada vez se coloca mais ênfase na necessidade de desenvolver as destrezas para usar a língua de maneira eficiente nos contextos que a requerem. A evolução nesses anos vai desde a competência comunicativa como finalidade atingida até a capacidade comunicativa como objetivo desejado. Essa evolução deve-se, em grande parte, à proliferação de cursos de formação de pessoal de empresas, programados para cobrir necessidades bastante concretas do ambiente de trabalho (p. e. os cursos de Wirtschaftsdeutsch do Goethe Institut). Nesses cursos, o uso eficiente da língua como objetivo de aprendizagem foi sempre acompanhado de uma preocupação maior pelo estudo da língua como instrumento retórico. Por outro lado, o conceito de técnica tem recebido maior atenção. Assim, oferecem-se cursos para desenvolver técnicas de apresentação, de negociação, etc., nos quais participam numerosos executivos de empresas, com o objetivo principal de atingir a capacitação para se comunicar num contexto profissional e também para aprender o uso de retóricas de persuasão eficientes. Para tanto, é fundamental o conhecimento dos conteúdos socioculturais próprios do mundo alemão.
Na atualidade, podemos identificar essa fase comunicativa, pela crescente mobilidade acadêmica e profissional entre países tanto comunitários como intercontinentais, favorecendo o interesse pelos aspectos da comunicação intercultural, considerando-se a problemática de mal-entendidos e outros obstáculos para a comunicação.
Existem muitos estudos e definições da linguagem econômico-empresarial, tanto para o alemão, como para outras línguas. Entre todas escolhemos a seguinte (BUHLMAN 1987: 306):
“Der Ausdruck Wirtschaftsdeutsch wird ebenso wie der Ausdruck technisches Deutsch als Sammelbegriff für diverse Fachsprachen gebraucht, die von Personengruppen mit unterschiedlicher Vorbildung, unterschiedlichen Tätigkeiten und unterschiedlichen Kommunikationszielen und –formen in einem beruflichen, akademischen und/oder ausbildungsbedingten Umfeld benutzt werden, das irgendwie mit Wirtschaft zu tun hat. Demzufolge könnte man in Anlehnung an Hoffmann sagen: “Wirtschaftssprache, das ist die Gesamtheit aller Sprachen, d. h. aller sprachlichen Mittel, die in einem fachlich begrenzten Kommunikationsbereich, nämlich dem der Wirtschaft, verwendet werden, um die Verständigung der in diesem Bereich tätigen Menschen zu gewährleisten.”
Os estudos de AEE abrangem, segundo os autores, todas as competências lingüísticas derivadas de situações empresariais.
Não podemos expor aqui todos os conteúdos de um curso de AEE, mas para nos aproximarmos do tema, vou colocar um material que a Mercedes-Benz X DaimlerChrysler do Brasil usa para os programas de intercâmbio dos seus empregados com a Alemanha, para prepará-los antes de irem para a Alemanha. Vou mostrar só uma escolha das dicas que oferece o programa (Gaidosch 2002: 27-28):
“-Für die Deutschen besteht das Leben aus zwei Hälften: der öffentlichen und der privaten. In der Öffentlichkeit ist abweisende Korrektheit an der Tagesordnung. Im Privatleben trägt man glänzende Trainingsanzüge und schlägt munter über die Stränge. Als Ausländer werden Sie fast automatisch zuerst das offizielle Deutschland kennen lernen, und das war’s dann schon.
- Die Deutschen sind stolz auf ihre Effizienz, ihr Organisationstalent, ihre Disziplin, Sauberkeit und Pünktlichkeit. Diese Eigenschaften sind allesamt Ausdruck ihrer Ordnungsliebe, die weit mehr umfasst als nur einen aufgeräumten Schreibtisch.
- Grundsätzlich redet man sich in Deutschland mit dem NACHNAHMEN und mit SIE an – es sei denn, man spricht mit der eigenen Familie, Verwandten, guten Freunden, früheren Schulkameraden oder Kindern unter 15 Jahren. Deutsche finden nichts dabei, auf dieser SIE-Basis jahrelang als Kollegen im selben Raum zusammen zu arbeiten und als Herren enge private Kontakte zu haben. Das Du wird angeboten mit einer kleinen Zeremonie, dem Brüderschaft-Trinken, besiegelt. Die jüngere Generation ist weniger kompliziert.
- In Deutschland lädt man sich gegenseitig offenbar weniger häufig ein als in anderen Ländern. Auch ist es im Allgemeinen nicht üblich, spontan und ohne Voranmeldung bei jemanden auf eineTasse Tee oder ein Glas Wein herein zu schauen. Eine Einladung für 19 Uhr heißt in der Regel es gibt Abendessen, eine Einladung für 20 Uhr nach dem Abendessen zu Getränken und vielleicht einemkleinen Imbiss am späteren Abend. Sie sollten nicht zu früh kommen, aber auch nicht mehr als eine Viertelstunde zu spät. Und wenn es ein Abendessen gibt, seien Sie bitte pünktlich. Üblicherweise bringt man eine Kleinigkeit mit. Am einfachsten ist immer ein Blumenstrauß, aber Achtung: bevor sie ihn der Gastgeberin überreichen, aus dem Papier auswickeln, und erinnern Sie sich, dass weiße Chrysanthemen an Begräbnis und rote Rosen als Liebeserklärung erinnern.“
Com todas estas informações, a nossa pergunta como professores é: -Como podemos transmitir esses conhecimentos aos nossos alunos de “Alemão econômico-empresarial” e “Alemão para turismo”, que ainda não conhecem diretamente a cultura alemã na sala de aula?
Depois de dar aos alunos uma série de dicas sobre a cultura alemã no ambiente empresarial, podemos sensibilizá-los com o seguinte exercício:
TAREFA: Leia o seguinte texto e resolva as causas do conflito entre o chefe alemão e o empregado brasileiro.
O senhor Ramalho do Rio de Janeiro tem o primeiro encontro com o novo chefe de München, o senhor Steinacker. Ele chega 15 minutos atrasado à sala do diretor e bate na porta. Steinacker abre a porta, olha muito sério para Ramalho, cumprimenta-o com um aperto de mão forte e o convida a se sentar em uma cadeira.
Ramalho tenta começar a conversação com um bate-papo: München ist eine schöne Stadt, sind Sie aus München? (München é uma cidade linda, o senhor é daqui mesmo?)
Steinacker responde apenas JÁ (sim) e sem entrar no papo, vai direito ao tema. Dá a Ramalho uma lista de perguntas sobre as quais precisa rapidamente de informações.
Ramalho fica surpreso com essa forma tão direta e move a cadeira uns centímetros para frente, se aproximando do chefe.
Steinacker se levanta e fala: -Preciso das informações até às duas horas!
Ramalho também se levanta, compreendendo que o encontro chegou ao final, mas tenta achar uma forma de criar uma atmosfera mais simpática. Aproxima-se do chefe, toca-lhe o braço e diz: - “In Ordnung” (tudo bem!). O chefe fica irritado e responde: -OK, bis zwei! (ok, até às duas).
Ramalho sai da sala e se pergunta: - o que fiz de errado? Ele esperava no primeiro encontro um bate-papo onde se conheceriam um pouco melhor; uma conversação mais longa com algumas informações gerais sobre o novo trabalho etc. Ele está convencido de que incomodou de alguma forma Steinacker ou de que o chefe não gostou dele.
Os alunos devem resolver as causas do conflito
Os seguintes mal-entendidos aconteceram. CHAVE:
- Ramalho chegou 15 minutos atrasado. A pontualidade na Alemanha, e ainda mais no mundo empresarial, é importantíssima. Chegar atrasado significa que você não é uma pessoa séria, na qual se pode confiar.
- Steinacker fica surpreendido com o bate-papo de Ramalho. Na Alemanha não se começam as conversações de negócios ou laborais com bate-papos, vai-se diretamente ao assunto.
- Ramalho interpreta o comportamento direto do chefe ao falar logo do trabalho como uma forma de aborrecimento e grosseria. Ele não sabe que o comportamento normal do alemão é ir diretamente ao assunto/tema sem bate-papos.
- Quando Ramalho colocou a sua cadeira mais perto de Steinacker, o chefe ficou incomodado. Não se mexem nos móveis da sala de outra pessoa.
- Quando Ramalho lhe tocou, o chefe ficou chateado. A distância física entre as pessoas, ainda mais no mundo laboral, é muito maior que no Brasil. O contato físico é totalmente inapropriado.
Este exemplo pretende sensibilizar os alunos sobre a diferença no relacionamento profissional entre a cultura alemã e a brasileira, não de forma direta, mas mediante um exercício de solucionar problemas, procurando, assim, um maior envolvimento do estudante.
Finalmente, gostaria de colocar algumas diferenças entre as duas culturas, que são fundamentais num contexto de negociação, seja econômico- empresarial ou turístico com base nas quais poderíamos desenvolver materiais e atividades para a aula.
Os conflitos na Alemanha se resolvem em público, diretamente e no mesmo momento. No Brasil se convive com o conflito com freqüência e se evita o confronto direto.
Na Alemanha: "NEIN" sagen ist ok." (se pode tranquilamente dizer “Não”, sem problemas). Por exemplo, quando não se pode acabar uma tarefa a tempo, é preciso avisar, dizer que não dá, só assim os alemães podem aceitar os possíveis atrasos. Os brasileiros normalmente não falam “não”. Preferem um sim retórico para ficar à vontade com o interlocutor. Isso leva a mal-entendidos com os alemães.
Resumindo: "Kommunikation im deutschen Kulturkreis ist explizit und sachorientiert", e para a cultura brasileira : "wird eher implizit und beziehungsorientiert kommuniziert." O que quer dizer que: um alemão está querendo dizer o que fala, enquanto o que o brasileiro diz tem que ser interpretado (lido nas entrelinhas). Ao mesmo tempo, na cultura brasileira se evita constantemente o conflito e a forma direta de dizer as coisas, e por isso os alemães podem até ser vistos como mal-educados ou grosseiros. Para os alemães, os brasileiros, por sua vez, são considerados superempfindlich (supersensíveis).
5. Conclusão
Em nossa perspectiva, os objetivos da aprendizagem intercultural são interessantes do ponto de vista pedagógico, pois comportam uma autonomia na aprendizagem ausente nos enfoques precedentes, já que o que se pretende não é transmitir uma série de conteúdos culturais, porém desenvolver a capacidade dos aprendizes para identificar e interpretar as diferenças entre a própria cultura e a cultura objeto de estudo. A vantagem de um enfoque baseado no processo de aprendizagem frente a um enfoque baseado nos conteúdos produz resultados evidentes: se nos limitarmos a transmitir uma série de conteúdos, sempre podem aparecer conteúdos novos, ou seja, aspectos de comportamento sociocultural que não estão incluídos no programa do curso. Por isso, é mais produtivo intervir no processo e sensibilizar os estudantes sobre o fato de que todas as sociedades manifestam comportamentos condicionados culturalmente e prepará-los para que sejam capazes de preveni-los, identificá-los e interpretá-los adequadamente em situações imprevisíveis.
Em outras palavras, o ensino do aspecto sociocultural constitui uma "destreza" a mais que devemos desenvolver, sensibilizando os aprendizes de que, na comunicação com falantes de outras línguas, as diferenças não são unicamente lingüísticas, há também diferenças culturalmente induzidas. Tomalin & Stempleski (1993:7-8) estabelecem os seguintes objetivos gerais de uma aprendizagem intercultural:
- Ajudar os aprendizes a compreender que todos os povos mostram comportamentos culturalmente condicionados e que as variáveis sociais como idade, sexo, classe social ou lugar de residência têm uma influência na maneira de falar e de se comportar.
- Ajudar os aprendizes a tomar consciência dos comportamentos convencionais presentes nas situações habituais da cultura atingida e ensinar-lhes que devem ter conhecimento das conotações que as palavras e as frases têm na cultura objeto de aprendizagem.
- Desenvolver nos aprendizes a habilidade necessária para localizar e organizar informações sobre a cultura objeto de estudo e estimular a sua curiosidade intelectual pela cultura de estudo.
- Desenvolver no estudante a capacidade de avaliar e realizar generalizações sobre a cultura objeto partindo de fatos objetivos, e não de preconceitos ou de estereótipos, e promover assim atitudes empáticas em relação a essa cultura.
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