O Projeto de línguas para a comunidade na Uerj e seu papel na formação do professor de alemão
Patrícia de Barros Ferreira (Graduanda -UERJ)
Magali dos Santos Moura (Profa. Dra. UERJ)
A partir de 1996, os projetos vigentes de ensino de línguas para a comunidade externa oferecidos pelo Instituto de Letras foram unificados, criando-se o Programa de Ensino de Línguas para a Comunidade (Licom), que deu continuidade aos anteriormente cadastrados (alguns desde 1994, outros, como alemão, desde 1995) mantendo as propostas originais e o cronograma de funcionamento das turmas já existentes. Atualmente, o Licom atende a cerca de dois mil alunos, em turmas de número limitado.
Estagiando no Licom os alunos de Graduação têm oportunidade de se iniciarem na prática docente, sendo propiciada à Comunidade interna e externa da UERJ a aquisição da língua alemã como língua estrangeira e, por último, criando-se um processo reflexivo no qual o Orientador é instado a rever as bases de sua própria prática através do diálogo e troca de experiência constante com seus Orientandos.
Os objetivos específicos são:
- Promover a discussão metodológica como um processo de renovação constante dos parâmetros de ensino de Língua Estrangeira;
- Incrementar a discussão sobre a metodologia de Língua Estrangeira (LE) que tem como público-alvo o falante de Português do Brasil;
- Formar professores de LE que tenham autonomia em relação a uma obra didática, capaz de se realizar de forma satisfatória o ensino da língua;
- Elaborar estratégias de ensino que levem em consideração a especificidade do falante nativo de língua portuguesa no Brasil;
- Desenvolver atividades que reflitam essas estratégias;
- Desenvolver estratégias em conformidade com a abordagem comunicativa englobando as diferentes habilidades (falar, ouvir, ler e escrever) em LE;
- Atender a demanda da Comunidade interna e externa da UERJ por curso de Alemão;
- Criar um Fórum de discussão em forma de reuniões em Seminários ou Simpósios em conjunto com outras instituições de Ensino onde se ensine Alemão como LE;
Os programas e bibliografias básicas de cada curso são aprovados formalmente pelo Departamento do professor responsável, e a seleção dos alunos-mestres segue os critérios estabelecidos pelas normas universitárias vigentes.
No caso específico do ensino de alemão, o projeto caracteriza-se pelo uso crítico de uma determinada obra didática, buscando, através de reuniões quinzenais de planejamento das aulas, adaptar e conhecer as peculiaridades do público-alvo. Procura-se fazer uma adequação do processo de aprendizagem às suas especificidades e, com isso, atividades inovadoras devem ser requeridas para criar uma dinâmica permanente em sala de aula.
Atualmente há dois métodos utilizados pelo Licom: o Studio d: Deutsch als Fremdsprache, implantado a partir do segundo semestre de 2007, e o Themen Aktuell, que dura desde 2006. Vem sendo feita uma substituição progressiva para que o primeiro atenda aos quatro níveis no primeiro semestre de 2009. Essas obras didáticas destinam-se a adultos e jovens que já tenham concluído o Ensino Médio, sendo que o Studio d apresenta uma abordagem mais moderna e recente da língua alemã.
No caso deste, é utilizado o Livro A1, que conjuga num só os chamados livro de curso e de exercícios e, além disso, os alunos-mestres e o professor orientador elaboram exercícios e atividades extras, conforme a necessidade do processo de aquisição da língua e também para que o aluno iniciante na docência possa ganhar uma autonomia em relação à obra didática. Como é uma obra que se baseia na autonomia do aluno, o professor precisa exercitar a sua própria autonomia para poder fazer, assim, uma avaliação da efetividade de sua prática e de seus resultados.
O livro em questão utiliza textos autênticos que despertam o interesse do aluno e o estimulam. A gramática é trabalhada de forma suave, pois não se apresenta todo um aspecto de uma só vez. Sempre de forma contextualizada, é apresentado um determinado aspecto gramatical que mais tarde é resgatado acrescentando-se um novo aspecto e assim continuadamente. Num crescendo o aluno é levado a desenvolver suas próprias estratégias de estudo, com o auxílio das imagens utilizadas, que incitam o ato comunicativo. A perspectiva da abordagem comunicativa oferece a possibilidade de uma ação e, conseqüentemente, uma visão interacional no processo ensino/aprendizagem, já que a língua, os enunciados, expressos em forma de diálogos com o aluno, o envolvem diretamente no processo de aprendizagem, fundamentando a construção de relações pessoais e de identidades sociais. Desta forma, situações criativas, exercícios agradáveis e propostas lúdicas serão instrumentos fundamentais para o vínculo afetivo dos participantes da oficina, permitindo fortalecer as relações indivíduo / grupo, assim como o engajamento discursivo necessário para o processo de aprendizagem.
Os cursos de alemão para a comunidade são oferecidos para turmas de, no máximo, 25 alunos, exigido o Ensino Médio como escolaridade mínima para seus pretendentes, que são inscritos segundo calendário prévio, elaborado de comum acordo com a Direção do Instituto de Letras. Possuem uma carga horária total de 60 h/a, divididas em dois encontros semanais com duração de 2h/a cada, às terças-feiras ou de 4h/a cada, aos sábados. A avaliação dos participantes dos cursos é feita através de provas escritas ao término da cada lição do método e também por uma prova oral ao final do semestre, com nota total mínima igual ou superior a 6,0 (seis), sendo requisitada a freqüência mínima de 75% das aulas.
Atualmente, há com sete bolsistas, alunos-mestres, responsáveis por ministrar aulas nestes quatro níveis divididos em doze turmas, sendo cada bolsista responsável por uma ou duas turmas. Cabe salientar que este é o número necessário de alunos-mestres para satisfazer a demanda por alemão.
Suas expectativas iniciais são de fato a de entrar em contato com o exercício de magistério, vislumbrando a possibilidade de conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho com esta prática. Além disso, ensinar é sempre um outro modo de aprender, já que põe o conhecimento adquirido à prova.
Os principais problemas enfrentados pelos alunos-mestres são a falta de infra-estrutura das salas de aula e a falta de experiência de sala de aula para transmitir determinados conteúdos, o que só se adquire mesmo com experiência e com a troca de experiência com os outros alunos-mestres e com o orientador. Por outro lado, a interação com os alunos é sempre uma troca positiva e o bom nível intelectual e cultural da maioria deles é um incentivo a mais para o bom preparo das aulas.
Durante o primeiro semestre de 2008 os alunos estavam assim distribuídos nas turmas:
- cinco do nível I, sendo três durante a semana e duas aos sábados, contando com 68 alunos;
- quatro do nível II, sendo duas durante a semana e duas aos sábados, contando com 42 alunos;
- duas do nível III, sendo uma durante a semana e uma aos sábados, contando com 15 alunos;
- uma do nível IV, durante a semana, contando com 5 alunos.
Em questionário aplicado aos alunos do curso, foi constatado que a curiosidade de aprender alemão e interesses profissionais são os principais motivos que os levaram a escolher esta língua dentre as oferecidas pelo curso. A música foi o principal agente para os curiosos, diferente das áreas profissionais mencionadas, que são as mais diversas, como Direito, Filosofia, Engenharia e Psicologia. Chegou a ser alegada razão religiosa, dada a ‘importância histórica do vernáculo em alemão para o movimento protestante’, nas palavras de um aluno.
Interessante observar que, questionados sobre as expectativas iniciais, nove alunos entrevistados acreditavam que o aprendizado seria mais difícil do que se apresentou, contra cinco que achavam ser mais fácil. No entanto é quase um consenso entre eles que o Licom fornecerá conhecimentos básicos para um prosseguimento nos estudos de alemão.
O principal aspecto complicador do aprendizado para os alunos é a gramática, principalmente no que diz respeito ao gênero dos substantivos, ao plural e às declinações. Talvez por esse motivo a pronúncia, temida pelos brasileiros em geral, apresentou-se como dado positivo no processo de aprendizagem pela praticidade. A dificuldade de acesso à língua nos meios de comunicação também foi destacada pelos entrevistados.
Um aspecto que chama atenção entre os que facilitam a aprendizagem, embora não seja o mais citado na pesquisa, é a dedicação por parte dos próprios alunos. Perceber que é preciso também se dedicar em casa buscando meios de praticar o aprendizado e ver colegas abandonarem o curso ao longo do semestre os faz pensar desse modo e valorizar o esforço pessoal. Os demais dados incentivadores constatados através dos questionários foram, principalmente, o ritmo das aulas e o material didático utilizado.
Os alunos-mestres de Iniciação à Docência devem executar as seguintes tarefas ao longo dos períodos letivos:
- Ministrar aulas de alemão nos Cursos para a Comunidade oferecidos pelo Projeto LICOM;
- Participar das reuniões que antecedem o início do semestre para elaborar o planejamento de curso.
- Participar das reuniões quinzenais com o Professor Orientador nas quais serão feitas discussões sobre a teoria e a prática da metodologia aplicada, além de fazer o planejamento quinzenal das atividades a serem desenvolvidas nas aulas;
- Elaborar em conjunto com o Professor Orientador materiais didáticos adequados à metodologia aplicada e que abranjam as variadas habilidades envolvidas na aprendizagem de Língua Alemã como Língua Estrangeira;
- Ler os textos recomendados pelo Professor Orientador e apresentá-los de forma crítica nos encontros;
- Executar o planejamento elaborado nas reuniões;
- Elaborar exercícios e avaliações a serem utilizados no curso, em conjunto com o Professor Orientador.
- Estar em processo contínuo de auto-avaliação e das atividades executadas, efetuando a alteração e melhoria dos procedimentos, sempre que, o processo não estiver desenvolvendo-se a contento.
Em maio do último semestre, o professor Antonio Rego, do Goethe-Institut, foi convidado a dar uma palestra aos alunos-mestres. Antonio é o professor responsável pela elaboração das avaliações relativas ao Studio d no curso, sendo o primeiro a ter utilizado este método no Instituto. Em tom de bate-papo, foram dadas algumas dicas referentes ao material didático e às práticas em sala de aula, muito bem recebidas pelos alunos-mestres.
Pode-se destacar a pertinência de um material didático extra, como jogos e exercícios variados, e o cuidado em não abordar certos aspectos gramaticais que só virão mais tarde. Como o aprendiz deve ser exposto à língua estrangeira e praticar as estruturas, o professor deve saber que as mais complexas exigem maior capacidade de raciocínio dos alunos, devendo ser ensinadas e praticadas num estágio posterior do ensino.
Essa variabilidade defendida por Antonio e constantemente procurada pelos alunos-mestres baseia-se na idéia de que certas pessoas possuem melhores habilidades lingüísticas ou cognitivas para a aprendizagem de língua estrangeira do que outras e que os aprendizes utilizam uma variedade de estratégias, tanto relacionadas a estratégias gerais e organizacionais, quanto relacionadas a habilidades de interação social. Todos esses fatores indicam a necessidade de o professor variar suas técnicas pedagógicas em sala de aula, para poder contemplar pelo menos algumas dessas diferenças, indo além dos exercícios mecânicos e descontextualizados de estrutura e de tradução.
Por tudo o que já foi aqui exposto, o propósito maior do Licom é o de fazer com que o futuro professor, a partir da experiência adquirida na utilização do livro didático, ganhe uma percepção enquanto produtor e executor do processo de aprendizagem e se torne um profissional que tenha o processo reflexivo como base de sua atuação profissional, contribuindo para a melhoria da qualidade de ensino em nosso País.

