ENSINO DE ALEMÃO MEDIADO POR NOVAS TECNOLOGIAS:
TENDÊNCIAS, POSSIBILIDADES E LIMITES

Ms. Cibele Cecilio de Faria ROZENFELD1 (UNESP-Araraquara/CNPQ)
Dra. Ucy SOTO2 (UNESP-Araraquara)

RESUMO: Vivemos hoje em uma sociedade marcada pelas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, das quais decorrem transformações sócio-culturais bastante relevantes. Considerando que ensinar línguas estrangeiras, em perspectiva contemporânea, é parte de um processo educacional, pelo qual o professor oferece ao aluno a oportunidade de rever valores culturais, de ampliar seu horizonte pessoal e profissional, é importante que o professor considere em sua prática aspectos relativos ao contexto sócio-cultural do aluno, às suas reais necessidades e aos seus interesses. O presente trabalho visa apresentar reflexões acerca da utilização de novas tecnologias no ensino de línguas, iniciando com uma breve retrospectiva sobre o Ensino à Distância e sobre o uso de tecnologias no ensino de línguas e analisando, por fim, a relevância, as tendências, possibilidades e os limites do ensino de línguas mediado por novas tecnologias.
Palavras-chave: ensino à distância, ensino de línguas, ensino de alemão, novas tecnologias

ZUSAMMENFASSUNG: Wir befinden uns heute in einer Gesellschaft, die von den neuen Informationstechnologien und Medien geprägt wird, welche wichtige socio-kulturelle Veränderungen hervorrufen.Unter der Perspektive, dass  Fremdsprachunterricht heute Teil eines Erziehungsprozesses ist, in dem der Lehrer dem Schüler die Gelegenheit anbietet, kulturelle Werte zu überdenken und seinen persönlichen und professionellen Horizont zu erweitern, ist es unerläβlich, dass der Lehrer in seiner Praxis die Aspekte der sociokulturellen Umgebung des Schülers, seine reellen Bedürfnisse und seine Interessen berücksichtigt. Die vorliegende  Arbeit stellt Überlegungen zum Gebrauch neuer Technologien im Sprachunterricht an. Zunächst machen wir eine kurze Retrospektive des Fernunterrichtes und des Gebrauchs von neuer Technologie im Sprachunterricht. Anschließend führen wir eine Analyse der Relevanz, der Tendenzen, der Möglichkeiten und Grenzen des Sprachunterrichts mittels neuer Technologien durch.
Schlüsselworte: Fernunterricht, Sprachunterricht, neue Technologien.

  1. Introdução

O desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e comunicação vem sendo apontado como responsável por mudanças sociais e culturais vertiginosas. Por sua natureza exponencial, explosiva e caótica de crescimento, ele é considerado por alguns autores como o segundo dilúvio (ROY SCOTT apud LEVY, 1999, p.13) e são muitos os autores que buscam descrever as implicações sócio-culturais causadas por ele nas sociedades contemporâneas.
Dentre os autores destacamos LÉVY (1999, p.17), para o qual do desenvolvimento acelerado das telecomunicações decorrem novas formas artísticas, transformações na relação com o saber, questões relativas à educação e formação, cidade e democracia, manutenção da diversidade das línguas e culturas, problemas de exclusão e desigualdade.
As transformações perpassam todas as áreas, incluindo o campo de ensino e aprendizagem de Línguas Estrangeiras (doravante LE).
Por compreendemos o ensino de línguas estrangeiras como forma de promover ao aluno possibilidades de interações no interior da própria e entre culturas, a partir das quais ele poderá rever seus próprios valores, ampliar seu horizonte pessoal e profissional, consideramos notória a necessidade de reflexão acerca das formas de ensino e aprendizagem, em uma sociedade em transformação, marcada por intensas trocas de informação e pelo encurtamento de distâncias.
Frente às necessidades do contexto sócio-cultural em que vivemos, é imperativo que se elabore propostas de ensino, que visem a formação de alunos capazes de aprender a aprender, de reorganizar espaços e tempo, de integrar o pessoal e o social, o humano e o tecnológico (MORAN, 2000). Atribuímos a este reconhecimento a causa do notável crescimento de propostas pedagógicas na modalidade à distância, bem como da procura por estas. Todavia, ainda são muitas as questões que permeiam o ensino à distância (doravante EaD). Aspectos relacionados ao processo de ensino e aprendizagem na modalidade presencial devem ser revistos na modalidade à distância, visto que a mudança do suporte pedagógico altera consideravelmente, por exemplo, as formas de interação, o processo de aprendizagem, de ensino e o papel do professor.
O objetivo deste trabalho é tecer algumas reflexões acerca do ensino de línguas mediado por novas tecnologias, iniciando por uma breve análise do EaD em uma perspectiva diacrônica e como modalidade ensino da contemporaneidade. Em seguida, faremos uma pequena retrospectiva sobre o uso de tecnologias no ensino e aprendizagem de línguas, em especial sobre o CALL (Computer Assisted Language Learning), como proposta que se caracterizou como inovadora no uso de novas tecnologias no ensino de línguas e que deixa marcas importantes no uso atual das Novas Tecnologias de Comunicação e Informação (doravante NTCIs) no ensino/aprendizagem de LE contemporâneo. Finalizaremos discorrendo sobre a utilização das NTCIs como tendência atual na prática de ensino de LE e analisando algumas possibilidades e limites de ambientes virtuais para o processo de aprendizagem e ensino.

  1. O Ensino à Distância (EaD) como modalidade de ensino contemporânea

Antes de discutirmos o EaD como modalidade de ensino contemporâneo, é importante ressaltar que a proposta de se ensinar e o desejo de se aprender de forma não presencial não é nova.
FREITAS (2005) apresenta um panorama geral sobre a história do ensino à distância e afirma que o primeiro curso à distância ocorreu em 1728, um curso de taquigrafia oferecido nos EUA (KATZ, 1973 apud FREITAS, 2005). A autora define EaD como todo programa de ensino, no qual o aluno e o professor estão separados em termos de espaço físico e a comunicação entre ambos ocorre por meio de um ou mais meios de comunicação de massa.
No Brasil, o Instituto Universal Brasileiro é apontado pela autora (op.cit., 2005) como o mais antigo a manter cursos por correspondência, datado de 1940.
Todavia, um histórico fornecido pelo Instituto Monitor (IM) o aponta como pioneiro em cursos à distância no Brasil. Segundo informações fornecidas pelo IM acerca do instituto3, ele surge em outubro de 1939, com Nicolás Goldberger, imigrante húngaro que, fugindo da perseguição nazista na Segunda Guerra Mundial, chega ao Brasil, trazendo consigo seu conhecimento técnico em eletrônica e apenas uma mala com poucas roupas. Ao chegar, Goldberger instalou-se em São Paulo e iniciou um pequeno negócio na região central da cidade.
Por ter se encantado com a enorme dimensão territorial do país, vislumbrou a possibilidade de interligar as regiões por meio da comunicação que, naquela época, era representada pelo rádio. Com esse intento, nasce o primeiro curso a distância no Brasil, que utilizava apostilas com os ensinamentos de eletrônica de Goldberger e um kit, dividido em etapas, como material pedagógico. Ao final do curso, era possível construir um rádio caseiro. A idéia ganhou força e culminou na fundação do Instituto Radiotécnico Monitor, o qual criou diversos cursos profissionalizantes. O insumo pedagógico era transmitido por correspondência e a correção das tarefas era encaminhada aos alunos pelo correio, a fim de estes poderem medir seu aproveitamento no curso.
Na década de 50, o método já era difundido e o país crescia aceleradamente.
Novos cursos foram oferecidos, novos institutos foram criados e a comunicação escrita entre estudante e professor tornou-se o símbolo do ensino à distância. Todavia, tais cursos não eram muito respeitados pela comunidade acadêmica mais tradicional, que resistia às novas formas de ensino e aprendizagem (FREITAS, 2005).
Tanto o Instituto Monitor, quanto o Instituto Universal Brasileiro4, oferecem ainda hoje diferentes cursos à distância: o Instituto Monitor com propostas de cursos profissionalizantes, técnicos, supletivos, presenciais, E-learning e o Instituto Universal Brasileiro de cursos supletivos, profissionalizantes e também cursos de espanhol e inglês.
Além destes institutos, existe hoje uma gama de escolas e institutos que oferecem cursos à distância e uma demanda nunca antes observada: a abrangência do EaD, hoje, nunca foi registrada em tempos remotos. Todavia, o EaD hoje se difere muito daquele encontrado anteriormente.
Primeiramente, temos como principal característica do EaD contemporâneo a combinação de vários meios de comunicação como ferramenta para o ensino e aprendizagem e a possibilidade de integração destes diferentes meios em um mesmo suporte. Assim, presenciamos uma verdadeira revolução digital, originada pela convergência digital de diferentes meios de comunicação em um novo instrumento: o computador em rede. Sua utilização no ensino e aprendizagem à distância possibilita a ampliação de espaços de ensino e aprendizagem, visto que estes não se restringem mais à sala de aula, mas podem ocorrer em qualquer lugar que disponha de rede. As instruções e tarefas são transmitidas e realizadas a partir de lugares diferentes, em tempos distintos, fato que possibilita maior acessibilidade a informações e conteúdos, mesmo para aqueles que se encontram em localizações distantes dos centros de ensino. O acesso a insumos didáticos pode ocorrer livremente, a partir de buscas individuais, de forma não linear, indo muitas vezes muito além daquele proposto pelo professor.
Essas mudanças implicam em transformações profundas nas formas de interação, nas relações aluno/aluno e aluno/professor, na organização dos papéis e nas concepções de ensino e aprendizagem. ALMEIDA (2003) enfatiza tais transformações quando afirma que os avanços e a disseminação do uso das tecnologias de comunicação descortinam novas perspectivas para a educação e que tais mudanças devem ser bem analisadas.
Em conseqüência delas, ocorre uma grande transformação na relação do aluno com o conhecimento.
Discorreremos no item quatro sobre algumas delas de forma mais detalhada, onde discutiremos também as tendências, possibilidades e limites do ensino de línguas à distância, foco de nosso interesse. Antes disso, porém, abordaremos o uso das novas tecnologias no ensino e aprendizagem de LE, iniciando com um breve percurso histórico de sua utilização na prática de ensino.

  1. Ensino de Línguas e uso de novas tecnologias

O ensino de línguas a partir do uso de tecnologias é um fato também já bastante antigo. O próprio livro é uma tecnologia e vem sendo utilizado para o ensino desde a era medieval. 
PAIVA (2008) afirma que a primeira informação sobre a utilização de livro por um aprendiz data de 1578 e se deu com a publicação de uma gramática do hebraico. Compreendia-se ensinar línguas como oferecer descrições lingüísticas e aprender uma língua, como aprender a sintaxe dessa língua (op.cit.).
Com as tecnologias de áudio, de gravação e reprodução, tornou possível levar para a sala de aula uma amostra de falas dos falantes nativos. Mais tarde veio o rádio, a televisão, que foram pouco a pouco passando a ser utilizados também na aprendizagem e ensino de línguas.
O computador, como tecnologia, vem sendo empregado em um movimento crescente e contínuo no ensino e aprendizagem de línguas. Pretendemos no próximo item discorrer brevemente sobre o histórico do seu uso no ensino de LE.

    1. Breve retrospectiva do uso do computador no ensino de LE

A década de 60 é apontada por alguns autores como marco do início efetivo do uso de computador no ensino e aprendizagem de LE, por ocasião da introdução do sistema CALL (Computer Assisted Language Learning) de ensino e aprendizagem de línguas (PAIVA, 2008).
WARSCHAUER (1996) já indicara o sistema CALL como aquele que introduziu o computador no processo de ensino e aprendizagem de LE e distingue três fases de existência do sistema: a behaviorista, a comunicativa e a integrativa.5
Segundo o autor, o CALL behaviorista foi concebido na década de 50 e implementado nos anos 60 e 70 e sua proposta tinha como base teórica os princípios behavioristas de aprendizagem. Nesta fase, as atividades eram elaboradas com o objetivo de levar à repetição exaustiva e à prática; o computador era utilizado como veículo de transmissão do material instrucional ao aluno. Neste momento, muitos sistemas tutoriais foram desenvolvidos com este mesmo objetivo, sendo o mais conhecido deles o sistema PLATO (Programmed Logic for Automatic Teaching Operations), que reunia exercícios de repetição de vocabulário, de estruturas gramaticais, de tradução, com aulas realizadas em laboratórios com computadores ligados a outros centrais.
Para LEVY (1997, apud PAIVA, 2008) o projeto PLATO deu início ao ensino de línguas mediado por computador, em 1960, na Universidade de Illinois. O programa usava uma ferramenta de autoria (tutor) e oferecia instrução mediada por computador para várias línguas. O sistema PLATO foi bastante difundido durante a década de 70, iniciando com 20 alunos, mas já com milhares de terminais em todo o país no começo da década de 80 e permitia, também, a interação entre as pessoas (PAIVA, 2008).
A segunda fase do sistema CALL, a fase do CALL comunicativo, iniciou-se nos anos 70 e 80, com o surgimento e sedimentação da abordagem comunicativa de ensino de línguas e a partir da percepção de que exercícios de repetição, automatizados, não promoviam situações autênticas de comunicação e a aprendizagem. Sendo assim, buscou-se levar o foco de ensino mais ao uso da forma que à forma propriamente dita, ao ensino implícito de estruturas, ao encorajamento dos alunos no uso da língua-alvo, a partir da inclusão de jogos didáticos, produção textual e simulações gráficas (WARSCHAUER, 1996).
A terceira fase, a fase do CALL integrativo, fundamenta-se na disponibilização de insumos lingüísticos, por meio de recursos multimidiáticos (CD-Rooms) e da internet, que podem ser utilizados pelos alunos de forma autônoma, por caminhos escolhidos por eles próprios. Nessa fase, enfatizou-se a possibilidade de desenvolvimento das quatro habilidades em uma mesma atividade, que poderia ser acessada de forma autônoma, de acordo com os diferentes interesses e as necessidades individuais. (op.cit, 1996)
A história do CALL é de grande relevância para a compreensão do papel do computador no processo de ensino e aprendizagem de LE, pois deu início a um movimento contínuo e crescente de utilização de novas ferramentas no processo de ensino e aprendizagem de LE.
A relevância do computador, hoje, no ensino de línguas, em especial, o computador em rede, está na sua utilização não apenas como fonte de insumo, mas também como instrumento de interação (LEFFA, 2006). Assim, verifica-se que seu uso vem sendo amplamente difundido, suscitando novas questões, fato que justifica o crescimento de pesquisas na área.
No próximo bloco, buscaremos fazer uma breve análise das tendências, possibilidades e limites de programas de língua estrangeira na modalidade virtual, com o intuito de contribuir com reflexões para a compreensão dessa prática na sociedade contemporânea.

  1. Tendências, Possibilidades e Limites do ensino de línguas à distância

Encontramos, atualmente, basicamente três formas de utilização do computador em rede no ensino e aprendizagem de línguas: a) como ferramenta para a disponibilização ao aluno de material didático complementar , b) como ferramenta para propostas de cursos híbridos (blended learning), ou seja, cursos com fases presenciais e também virtuais, ou c) como instrumento para o ensino e aprendizagem de línguas essencialmente à distância.
Notamos no Brasil uma maior incidência do uso do computador no ensino de línguas na primeira modalidade, aquela complementar a um curso regular, e pesquisadores da área vêm desenvolvendo diferentes programas, web-sites, CD-Rooms, homepages, com o intuito de responder a uma demanda de professores e/ou alunos.
No ensino de alemão encontramos, como exemplo desta modalidade, o projeto JETZT-DEUTSCH, resultado da parceria da Universidade Justus-Liebig-Universität-Giessen, do Instituto Goethe e do jornal Süddeutschen Zeitung. O Projekt JETZT- DEUTSCH6 é desenvolvido em ambiente virtual de aprendizagem, voltado para o público jovem, e visa oferecer a estudantes da língua alemã de nível intermediário um maior contato com a cultura alemã, com vistas ao desenvolvimento da autonomia na aprendizagem e de competências lingüísticas, à promoção de uma visão diferenciada da cultura alemã, ao desenvolvimento da habilidade de leitura e, também, ao aprimoramento da competência midiática dos alunos. A base das atividades são textos obtidos do caderno “Online-Magazin” do jornal “Süddeutschen Zeitung”, os quais são didatizados pela equipe do projeto e armazenados no ambiente virtual. Além disso, o projeto visa oferecer a professores sugestões didático-metodológicas, tanto sobre a utilização de novas tecnologias no ensino de alemão, quanto acerca de aspectos metodológicos do ensino da língua e da cultura alemã.7
Ainda no ensino de alemão, o Centro de Ensino de Línguas da Unicamp (CEL) oferece aos alunos de alemão material didático, fóruns de discussão e chats, como complemento aos cursos regulares de extensão, disponibilizados na plataforma virtual de aprendizagem moodle.
O Instituto Goethe, por sua vez, oferece a interessados na aprendizagem de alemão, cursos na modalidade blended learning, ou seja, na forma híbrida. Os cursos são ministrados em sua grande parte à distância, a partir de CD-Rooms individuais, chats e acompanhamento do professor via e-mail, mas também com a realização de seis encontros presenciais semestrais.
Com estes exemplos visamos ilustrar alguns dos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos no ensino de alemão mediado por novas tecnologias. Além destes, a autora PAIVA (2008) descreve algumas atividades no ensino de inglês desenvolvidas por meio do uso do computador nas universidades. Dentre eles, a autora destaca as disciplinas desenvolvidas por ela na UFMG sobre a leitura e escrita na internet, para alunos de licenciatura em Letras. Além deste, são destacados o projeto Read in Web da Unicamp, o Teletandem na Unesp de Rio Preto e o sistema ELO (Ensino de Línguas Online), sistema de autoria on-line para elaboração de exercícios digitais.8
As possibilidades que os novos recursos de comunicação e informação podem oferecer são, por exemplo:

  1. Atividades assíncronas: e-mail, lista de discussão, fórum, blog, programas de autoria (moodle, teleduc, etc)
  2. Atividades síncronas: chats, vídeo-conferência, skype;
  3. Buscadores, sites, exercícios interativos.

A escolha dos recursos para elaboração do conteúdo e modalidade de ensino deverá ser feita tendo em vista o contexto de ensino e aprendizagem (local, condições tecnológicas do aluno e da instituição, público-alvo), os objetivos a serem alcançados e a demanda e interesse dos alunos.
Os novos recursos representam grandes mudanças e oferecem novas possibilidades na área de ensino e aprendizagem de LE, mas também alguns limites. Abordaremos no próximo bloco tais aspectos.

    1. Possibilidades e Limites

Com a introdução das NTCIs no ensino e aprendizagem de LE, alguns aspectos do processo são alterados significativamente, em decorrência do fato de que uma proposta de ensino on-line implica no estabelecimento de novas formas de interação entre os alunos, entre aluno-professor, em nova forma de exposição à língua-alvo e na administração individual do tempo de aprendizagem.
Os espaços e tempos em muitas atividades não são compartilhados (atividades assíncronas), as relações entre os alunos são midiatizadas, as formas de interação se modificam.
LEFFA (2005) analisou as formas de interação face-a-face, em curso presencial, e comparou-as com as que ocorrem em um curso à distância. O autor aponta para o fato de que, nas interações face-a-face, é comum a seqüência de turnos professor-aluno-professor, enquanto que em um curso à distância, a interação ocorre em torno do conteúdo desenvolvido nos cursos. Enquanto em cursos presenciais as aulas se desenrolam basicamente segundo tomadas de turno do professor, e o conteúdo está centralizado no que é proposto pelo professor, em uma aula virtual o conteúdo está disponível no ambiente e o papel do professor é de animador da interação (op.cit., 2005). O professor assume um papel muito mais de guia e os alunos interagem em um processo de aprendizagem colaborativa.
Tais características do ambiente virtual de aprendizagem podem promover maior autonomia ao aluno, uma vez que ele poderá determinar o seu próprio tempo e espaço de acesso ao conteúdo, bem como as relações que irá estabelecer.
Dessa forma, a relação com o conhecimento se modifica: essa é uma das importantes marcas deixadas pelas NTCIs na sociedade de informação. Se em tempos anteriores a elas, prevalecia a imagem de formação escolar e acadêmica como sendo as fases de aquisição do conhecimento, o qual deveria ser aplicado em uma fase subseqüente (a de atuação profissional), essa concepção se altera hoje significativamente. Espera-se dos alunos e dos profissionais da contemporaneidade a participação ativa na sua formação e a formação continuada, buscando continuamente novos conhecimentos. Sendo assim, o conhecimento não se estabiliza e deve ser constantemente retomado, reposto, reelaborado, revisto. Para que isso ocorra, a rede possibilita o acesso às informações de forma constante e fácil. Basta que haja a conscientização e mobilização do usuário, sendo a primeira principalmente no sentido de avaliar criticamente os conteúdos encontrados, visto que na rede encontra-se disponível tanto material de alta, quanto também de baixa qualidade.
Até aqui discorremos sobre as grandes possibilidades que se abrem a partir do ensino e aprendizagem a partir do uso de novas tecnologias. Todavia, reconhecemos alguns fatores que se configuram como obstáculos para sua efetiva aplicação.
O primeiro fator é a questão da acessibilidade. Nota-se que ainda existe uma dificuldade por parte dos professores para a utilização das NTCIs em sala de aula devido a fatores como, por exemplo, a indisponibilização da instituição de ensino de tais tecnologias. Tal fato pode ocorrer também por parte dos alunos, que muitas vezes, apesar de motivados para utilizá-las, não possuem acesso a elas ou o possuem apenas de forma bastante restrita.
Além de algumas restrições na disponibilidade de tecnologias, existem ainda dificuldades decorrentes da qualidade de acesso: o acesso lento à rede é o problema mais comum, configurando o segundo fator.
O terceiro fator é a falta de preparo de alguns professores e alunos para o ensino e/ou a aprendizagem virtual. Devemos considerar que somos filhos de um sistema educacional presencial, o qual contribuiu para a cristalização de determinadas crenças de alunos e/ou professores acerca do que seja o processo de ensino e aprendizagem. Para muitos, o fato de professor e alunos não compartilharem o mesmo espaço físico, ainda constitui uma grande barreira na transmissão e aquisição de conhecimentos. O professor, muitas vezes, não possui o devido letramento digital para a utilização das novas ferramentas, ou não possui o interesse e a motivação necessários para adquiri-lo. Por sua vez, muitos alunos, como filhos da tradição do ensino e aprendizagem centrados nos saberes do professor, esperam a “transmissão adequada” do conhecimento, assumindo uma posição passiva no processo de aprendizagem. Assim, a postura positiva frente às possibilidades de aquisição do conhecimento a partir do meio virtual e a habilidade para seu uso, ainda são aspectos que devem ser melhor desenvolvidos por professores e alunos.

Considerações Finais

A partir das reflexões que expomos neste trabalho, buscamos elucidar o importante papel das Novas Tecnologias de Comunicação e Informação no processo de ensino e aprendizagem contemporâneo. Vimos que o ensino à distância, a aprendizagem e ensino em situação de separação espacial e temporal entre professor e aluno, a partir do uso de tecnologias, não é algo novo em diversas áreas. Todavia, o ensino por meio das NTCIs se diferencia de tecnologias anteriores, pelas inúmeras possibilidades que se abrem a partir da utilização do computador e principalmente, do computador em rede para fins pedagógicos.
Com a abertura de novas possibilidades, abrem-se também questões relevantes acerca do processo do ensino e aprendizagem, uma vez que o computador, como instrumento de mediação, modifica as relações e estas devem ser investigadas.
Frente a isso, concluímos que o papel do professor se modifica sensivelmente. Ele não é mais o centro, o detentor de saberes e não deve dar as costas às transformações educacionais decorrentes do uso das novas tecnologias e à expansão das fronteiras. Ao contrário, ele deve entender o seu papel fundamental como guia, orientador e/ou de animador de interações (LEFFA, 2005). O computador em rede como instrumento de mediação, permite o acesso do aluno a qualquer tipo de informação e a diferentes formas de interação. Cabe ao professor conscientizar seus alunos sobre seu uso para fins, não meramente de entretenimento, mas também pedagógicos.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, M.E.B. Educação à distância na internet: abordagens e contribuições dos ambientes digitais de aprendizagem. In: Educação e Pesquisa, v.29, n.2, pp. 327-340, 2003.

FREITAS, K. S. Um panorama geral sobre a história do ensino a distância. In: ARAUJO; K.S.de F. (Org.). Educação à distância no contexto brasileiro: algumas experiências da UFBA, vol. 1, Salvador: ISP/UFBA, pp. 57-68, 2005.

MORAN, J.M. Ensino e aprendizagem inovadores com tecnologias. In: Informática na Educação: Teoria & Prática. Porto Alegre, vol. 3, n.1 UFRGS. Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação, pp. 137-144, 2000.

LEFFA, V. JA aprendizagem de línguas mediada por computador. In: LEFFA, V. (Org.). Pesquisa em lingüística Aplicada: temas e métodos. Educat, Pelotas, pp. 11-36, 2006.

__________Interação Virtual versus interação face a face: o jogo das presenças e ausências. Trabalho apresentado no Congresso Internacional de Linguagem e Interação. São Leopoldo: Unisinos, 2005.

LÉVY, P. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da costa. Editora 34, São Paulo, 1999.

PAIVA, V.L.M. O uso de tecnologias no ensino de língua estrangeira: breve retrospectiva histórica. Disponível em http://www.veramenezes.com/publicacoes.html. Acesso em 30 de setembro.

WARSCHAUER, M. Computer Assisted Language Learning: an introduction. Disponível em http://www.gse.uci.edu/person/markw/call.html. Acesso em 28 de setembro de 2008.


1 Cibele Cecilio de Faria ROZENFELD, Ms.
(Unesp- Araraquara: Departamento de Letras Modernas/CNPQ e Departamento de Didática)
cibeleroz@yahoo.com.br

2Ucy SOTO, Dra.
(Unesp- Araraquara:Departamento de Letras Modernas)
ucysoto.unesp@gmail.com

3 As informações sobre o IM estão disponíveis em http://www.institutomonitor.com.br/. Acesso em 20 de setembro de 2008.

4 As informações acerca do Instituto Universal Brasileiro foram encontradas disponíveis em http://www.institutouniversal.com.br/. Aceso em 28 de setembro 2008.

5 A tradução de trechos do texto em inglês foi realizada pelas autoras.

6 O projeto Jetzt-Deutsch está disponível em: http://www.goethe.de/z/jetzt/deindex.htm. Acesso em: 30 de setembro de 2008. A tradução de trechos em alemão é de responsabilidade das autoras.

7 Informações disponíveis em http://www.goethe.de/z/jetzt/pdf/beschr_nov_2003_b.pdf
Acesso em 30 de setembro. A tradução do texto é de responsabilidade das autoras.

8 Os programas citados foram elencados por PAIVA (2008), disponível em: http://www.veramenezes.com/techist.pdf. Acesso em 30 de setembro de 2008.